Carlos Sivalli Ignatti

Tambm conhecido como Caco Ignatti, Carlos Ignatti, Caquera, Caquinho, Caco.

Ronald

Os clichês só são clichês porque têm seu valor. E ainda que não fossem os clichês mais meigos da cultura brasileira, Ronald carregava vários na ponta de língua. Frases como “somente o bom se perpetua” ou “um dia você vai dar razão pra mim” eram lugar comum em qualquer discussão com ele. Ronald adorava discutir, tanto que até hoje não ficou claro se ele acreditava mesmo em algumas coisas que defendia ou se fazia isso apenas pelo prazer da retórica.

No geral, a vida foi bastante difícil para Ronald. Uma infância muito pobre, uma mãe descompensada, um pai ausente que o introduziu ainda jovem no ofício de operário de fábricas de sapatos. Ronald passou a vida toda cheirando cola profissionalmente e nem por isso enlouqueceu. Tanto que se casou e, mesmo com o parco salário de operário, criou sem luxos seus três filhos de forma excepcional. Não que ele fosse o pai da família Doriana, mas pela trajetória de vida e exemplos que teve em sua formação, pode-se até pra dizer que Ronald, ao seu modo, era um doce.

Mas a verdade é que ele era um cara difícil de se lidar. Com opiniões duras e reacionárias, era quase impossível se encaixar no padrão de qualidade que Ronald esperava do mundo. Tudo e todos sempre mereciam algum comentário ácido, principalmente seus filhos, com quem Ronald mantinha uma relação bastante delicada. Ainda que hoje fiquem bem claros seus nobres fins, os meios às vezes eram bem tortuosos.

Ronald era um homem de prazeres simples. Estrada, praia, cerveja, caipirinha de vodka, consertar rádios e televisores velhos, fazer pequenas obras em casa, ouvir Clara Nunes e Orlando Silva e limpar os carburadores de suas Variants e Brasílias velhas. E num certo momento da vida ele alcançou uma a tranquilidade para desfruta-los. Com a família estruturada, seus filhos bem criados e independentes financeiramente e alguns pequenos luxos conquistados, ele pôde, enfim, permitir-se bons momentos com maior frequência.

Aí novamente a vida veio dificultar as coisas. Coração, rins e um monte de outras coisas não mais funcionavam direito naquele corpo. Em poucos anos, Ronald se viu totalmente privado de todos os poucos prazeres que tinha. Não podia beber, viajar ou mesmo uma caminhada mais longa. Restou-lhe os suspiros constantes e o arrastar de chinelos pela casa. Uma sombra do guerreiro que já tinha sido.

O que move qualquer pessoa é a busca pela manutenção dos seus prazeres. Quando quase todos eles deixam de existir, o corpo cansa de tanto viver. Na madrugada do dia 08 de junho de 2002, há exatos 8 anos, eu recebia do médico a notícia que Ronald havia morrido. Não era exatamente uma surpresa, há dias ele estava na UTI. Mas isso não minimizou o impacto da notícia da perda de um pai. Nem eu nem minha mãe choramos na hora, tampouco minhas irmãs que souberam por telefone logo depois.

Não que eu estivesse segurando as lágrimas antes, mas só no momento que soltei a alça do caixão e vi Ronald ser enterrado que eu desabei. Saí de perto, sentei no meio fio de uma das ruazinhas internas do cemitério e chorei por vários minutos. Depois pedi que meu amigo Rodrigo me levasse embora porque não havia mais nada que eu quisesse ver ali. Foram aproximadamente 31km de um cúmplice e total silêncio até minha casa, naquele ensolarada e frio final de tarde.

Hoje, 8 anos depois, ainda penso muito em meu pai. Quando ele morreu não estávamos nos falando, mas não cairei no clichê de dizer que vou carregar essa culpa para sempre. Tínhamos a relação que a cabeça dura dele e a minha imaturidade permitiam, o que não significa que eu não sinta falta dele e admita que realmente ele tinha razão em muitos de seus clichês. Cada ano que passa, me vejo mais parecido com ele, o que por si só já é um tremendo clichê. Talvez por isso às vezes eu sonhe com nós dois conversando sobre as coisas que tenho feito da vida, sempre em um tom amigável. Outro dia mesmo sonhei que assistíamos Homem de Ferro 2 no cinema e ele até que gostou. Na realidade Ronald odiaria esse filme. Mas vai saber, talvez ele dissesse que gostou só pelo prazer da retórica. E é disso que sinto falta.

Ronald e FamíliaFoto das fotos: Mario Amaya

A menina do telemarketing

Todos os meses era a mesma coisa e eu gostava assim mesmo. Ela me ligar com a mesma rigorosa frequência, permitia premeditar minha reação no inútil ritual de conversar com a menina do telemerketing da operadora de cartão de crédito. Ok, nunca era a mesma pessoa e a menina poderia ser até um menino, mas na minha cabeça existia uma entidade chamada “menina do telemarketing” que poderia trabalhar em qualquer empresa e ter qualquer idade.

E, em todos os seus telefonemas, a menina do telemarketing insistia que eu precisava urgente ter um cartão de crédito. Eu já tinha meus 25 anos nunca havia nem cogitado ter um, simplesmente porque herdei toda a tosquice do meu pai. Aprendi a comprar as coisas à vista na base da ação e reação, gastou e ficou sem. Meu pai era operário numa fábrica de sapatos e criou três filhos com essa filosofia, impossível que ele estivesse tão errado assim.

Mas a persistência era uma das virtudes da menina do telemarketing e mensalmente ela me ligava pra defender sua bandeira – fosse ela Visa ou Master – com um empenho comissionado de fazer inveja a qualquer soldado islâmico em sua da jihad. Um dia ela me disse que eu estava perdendo na vida. Segundo ela, com o cartão de crédito daquela promoção, eu poderia parcelar minha compras e até usar exceder meu limite em até 7 dias sem juros ou algo do tipo, não lembro e não importa. Respondi que não parcelava nem o IPTU do meu apartamento e que não gostava de dever para burguês. Disse também que meu pastor da igreja ensinou que dinheiro de plástico era invenção do Diabo.

Ela não se comoveu com minha argumentação barata. Do alto de seu headphone babado, a menina do telemaketing afirmou, na maior cara de pau, que muito em breve todo cidadão brasileiro teria um cartão de crédito e que eu seria o único a ficar fora dessa gostosa brincadeira consumista. Empolgado com as réplicas e tréplicas daquela prosa, perguntei se era possível fazer um cartão de crédito sem certidão de nascimento ou RG, afinal, tá cheio de brasileiro que não faz parte nem das estatísticas. Como fazia tempo que havíamos saído do script, a garota do telemarketing permitiu-se abusar de toda sua franqueza e responder, “Nós aprovamos cartões com limites de 200 reais, Sr., qualquer um pode ter”. Limitei-me a dar uma risadinha sem graça e agradecer a oferta, recusando-a mais uma vez. Desliguei sem esperar uma resposta e, em ligações posteriores, nunca mais me dei ao trabalho de argumentar.

Alguns anos depois, por conta de uma viagem ao exterior, fui obrigado a fazer um cartão e fiquei esperando a menina do telemarketing me ligar. Como eu tinha uma certidão de nascimento, um RG e agora até um passaporte, fui agraciado com um cartão de crédito internacional com limite superior a 200 reais e até anuidade grátis para sempre. Mas foi um processo mecânico, frio e sem argumentação. Eu precisava do cartão e ela tinha um para me oferecer, monótono e simples assim. A partir daquele momento eu fazia parte da gostosa e irresponsável brincadeira consumista e não me sentia feliz com isso.

Ainda que nossa relação já estivesse abalada desde a discussão social de quem pode ou não ter um cartão, eu ainda carregava um certo orgulho esdrúxulo porque até então, sempre havia negado as ofertas para ter um cartão de crédito. Sucumbir ainda que por obrigação aos encantos da menina do telemarketing, fez com que ela morresse para mim. Tanto é verdade que depois disso ela nunca mais me ligou. Hoje, em algum lugar, é ela que sente prazer por saber que estava certa desde o início. Hora ou outra, todo brasileiro vai ter um cartão de crédito. E que Deus nos ajude quando esse dia chegar.

Uma carta sobre nada

Querido Jerry,

Sem ainda ter ideia da importância que você viria a ter num período da minha vida, ouvi falar do seu show em 1998 por meio de uma colega de trabalho que te descreveu como uma pessoal maldosa e com piadas ótimas. Meus interesses na época eram outros e meu humor bem menos refinado de forma que, mesmo ouvindo seu sobrenome tantas vezes nos anos seguintes, só fui assistir e apreciar seu trabalho 10 anos depois.

No final de 2008 fui apresentado à insônia e depois que você a conhece, dificilmente ela vai embora da sua vida. Era angustiante a experiência de deitar na cama e ficar rolando de um lado para o outro fritando nos próprios pensamentos. Óbvio que existiam soluções farmacológicas para resolver isso, mas até então eu não tinha orientação médica de como administra-las, portanto tinha que improvisar.

A única forma de pegar no sono era desligar o cérebro, deixa-lo vazio, sem nada. Por intermédio e insistência de uma amiga da pós-graduação que emprestou todos os DVDs da série, uma noite ao me deitar e tentar pegar no sono, assisti um episódio do seu show sem muita expectativa. Acabei vendo a primeira temporada inteira naquela madrugada.

Ainda que o conceito da “série sobre nada” ainda não estivesse alí naqueles primeiro episódios, vi um tremendo potencial nas nove temporadas que eu tinha em mãos. Aquilo limpava minha cabeça de forma que eu conseguia pegar no sono, bastando dois ou três episódios por noite. Desde então, atribuo créditos a você por ter me ajudado a dormir na pior fase da minha insônia e depressão.

Assisti todas as temporadas num período de pouco mais de dois meses e o mais curioso é que eu estava tão transtornado nesse período, que mal me lembro dos episódios. Salvo uma cena ou outra, não consigo conectar muitos fatos a série. Sei o que é o Festivus, como é estacionar no estilo Constanza e o que é ser mestre do próprio domínio, mas diante da quantidade de cenas memoráveis, isso é pouco. Pensando bem, me lembro bem do George, talvez porque minha auto-estima seja bem parecida com a dele.

A ironia desta carta é que tenho noção que se você realmente a lesse, certamente faria algum comentário maldoso e engraçado sobre minhas amigas, sobre mim, minha insônia e o país onde moro. Seria justo, graças a esse seu tipo de comportamento que pude conseguir dormir em várias noites. Pensando sobre nada.

Caco Ignatti
27/05/2010

Jerry & Geroge & Elaine & CozmoFoto: TC

Parabéns pra ninguém

Não há inocência, não há respeito. Uma geração formada por crianças, não importando a idade real, como diria meu amigo Juliano Jubash, comemoram todos pimpões o halloween ou o San Patrick’s Day, mas quando chega na Sexta Feira Santa, correm comer um churrascão para exercer toda sua pseudo rebeldia e revolta para com a igreja e as tradições. Não há parâmetros para absolutamente nada, nem pra comemorar uma data que egoisticamente falando, todo miserável ser deste mundo deveria ter respeito, o próprio aniversário.

Tudo bem que acontece todo ano e não chega a ser um evento inesperado, ainda que os mais alarmistas possam sempre pensar que seja sempre o último, mas porra, em tempos que Rivotril vende mais que analgésicos, todo mundo deveria, no mínimo, ter respeito com esse ano a mais sobrevivido. E como as pessoas demonstram isso? Fodendo uma coisa simples, inocente e sincera, o momento do “parabéns pra você”.

Você vai num aniversário de um caboclo de 30 anos e na hora de apagar as velinhas, já começa um infeliz a tumultuar cantando errado ou começando a música novamente. Custa cantar a droga do parabéns direito? Claro que não! E ainda que não houvesse o infeliz que tumultua, sempre existe o mais abominável e nefasto de todos, aquele que acha super engraçado falar “é pica! é rola” no lugar do “é pique! é hora” e “no seu cu!” ou invés de “ratimbum!”. Quando se tem 14 anos, falar tantos palavrões em tão curto espaço de tempo parece transgressor, ainda que deveras deselegante com seu priminho mais novo ou sua avózinha de 80 anos. Agora, com mais de 20, é simplesmente inaceitável essa deplorável conduta. Cresça!

Outra coisa que me preocupa é uma geração de jovenzinhos, esses de idade mesmo, que por alguma distorção da realidade – provavelmente causada pela canção da Xuxa – aprenderam que ao invés de se cantar “é pique!”, se canta “é big!”. Que porra é essa? Viral do supermercado Big? Tudo bem que nosso parabéns pra você é uma versão da música americana Good Morning to All, mas a brasileira foi feita por uma senhorinha no ano de 1942 e nunca que nessa época ela enfiaria a palavra big na letra. Concordo que o sentido do “pique” é altamente questionável, mas porque teríamos o “big”, em inglês, jogado assim do nada no meio da letra?

Outubro tá chegando aí. Por gentileza, quem tiver a honra de ser convidado a prestigiar meu natalício, saiba desde já que deve cantar a música em sua versão original, sem distorções maliciosas, conforme abaixo:

Parabéns a você,
nesta data querida,
muita felicidade,
muitos anos de vida!
É pique, é pique!
É pique, é pique é pique
É hora, é hora!
É Hora, é hora, é hora
Rá – tim – bum!

Note que na letra é desejado ao aniversariante “muita felicidade”, no singular. Assim Dona Bertha, autora da versão em português, queria. Assim eu, Carlos Sivalli Ignatti, quero. Dispenso também o complemento “Com quem será que o Caco vai casar…”. Qualquer um que me conhece sabe que morrerei solteiro, tornando dispensável esse trecho.

Sobre bilhetes de loteria e mojitos

Se você comprar um bilhete de loteria, ele só deixa ou não de estar premiado quando você confere o resultado. Como as chances do prêmio normalmente são ínfimas, há quem goste de adiar o momento de saber os números, apenas para ficar fantasiando as coisas que poderia fazer com o dinheiro. É o tipo de atitude que entraria fácil para a lista de pequenos prazeres da Amelie Poulain como uma livre variação do ditado “as vezes o caminho da viagem é melhor que o próprio destino”.

Hoje recebi um bilhete de loteria por e-mail. O título tinha apenas uma palavra, suficiente pra arrancar o primeiro sorriso do dia em uma manhã de ressaca e sono. Diferente de qualquer outro ser humano minimamente normal, não quis ler a mensagem assim que ela chegou. Por quase duas horas, quando em vez, eu dava uma olhada no título e ficava imaginando o que eu podia esperar do seu conteúdo. Não pensava em nada mirabolante, apenas como quão inusitado era tudo aquilo, já que nem é do meu feitio entregar mojitos com meu e-mail escrito em um guardanapo para meninas bonitas na balada. A verdade é que eu nunca tinha feito isso antes, por isso, num primeiro momento, minha expectativa no ato foi quase nula, bem diferente da que eu me auto-infligi ao adiar a leitura. Ela era alta e estava me fazendo bem.

Contei para algumas pessoas a história e a resposta quase sempre foi algo como, “Lê logo essa merda!” e chegou um momento que não pude mais resistir a pressão popular. Ok, confesso que até em minhas projeções pessimistas eu não tinha imaginado a resposta que li, até porque ela não foi ruim, apenas não o que eu imaginava. Para exemplificar, seria algo como eu fazer a prova, ser aprovado no concurso e descobrir que a vaga é incompatível com minha formação. Ainda assim, valeu a pena. O e-mail que ela mandou foi muito bacana e, ainda que o sorriso tenha diminuído, não tenho absolutamente nada do que reclamar. Ganhei uma ótima história pra contar e descobri que mojito é um ótimo agregador social. Quem sabe na próxima vez meu bilhete de loteria vem premiado.

Antigamente era melhor

No senso comum existe uma espécie de semi-bordão de que no passado as coisas eram melhores. Ouve-se a frase título deste texto com certa frequência da boca dos populares e, no geral, ela é bem pouco questionada por quem a escuta. Parece sábio atribuir ao passado a era de ouro da música, cinema, moda, design, games, futebol, arquitetura, costumes, cultura e muitas vezes até tecnologia. Verdade seja dita, a esmagadora maioria das vezes confunde-se o conceito de melhor com o de memória afetiva.

Nos anos 80 quando eu ainda era criança, minhas irmãs estavam na adolescência e achavam incríveis Titãs, Legião Urbana, Blitz e tantas outras bandas da época. Meu pai dizia que aquilo tudo era lixo, Para ele a música antigamente era melhor com nomes como Ataulfo Alves, Orlando Silva, Angela Maria e Cauby Peixoto. Hoje em dia, quem é da geração das minhas irmãs diz que a melhor fase do rock nacional foi durante os anos 80. Mas a molecada dos anos 90 que hoje repudia toda essa onda emo de agora, diz que boa mesmo era a época do rock malemolente do Charlie Brown Jr. Seria o gosto das pessoas que está decaindo ou é mais fácil associar o “melhor” a uma fase da vida? Boas músicas já foram feitas e muitas outras ainda serão.

E quem fala que nasceu na época errada? Fiz em meu Twitter a pergunta “Quem aqui queria ter nascido nos anos 50/60 nos EUA?” e recebi várias respostas positivas. Não me aprofundei nas opiniões, mas tenho certeza que 100% das pessoas não trocaria o pseudo-glamour daquela época por todos os confortos da vida de hoje. O mundo não era um lugar melhor, mas nas fotos antigas, ele parece bem mais bonito e feliz.

Poderia usar vários outros exemplos pra ilustrar meu ponto de vista, mas nem estou a fim. Melhor ou pior são conceitos relativos e cada um prefere (ou acha que prefere) o que quiser. O que me incomoda é essa obsessão com o passado, justamente por ele ser intangível. É cômodo elogiá-lo usufruindo de todas as coisas boas que vieram depois. Continue gostando do que sua memória afetiva julga bom, mas entenda que isso não quer dizer que elas sejam melhores.

Mas existe uma coisa posso dizer que antigamente era melhor. A facilidade para se criar um blog faz com qualquer imbecil tenha a oportunidade de sentir-se um formador de opinião. Quando mais clichê a o ponto de vista, é mas fácil para o blogueiro sentir-se celebrado. Antigamente era melhor justamente porque manés como eue muitos outros, limitavam-se a expor suas pérolas de sabedoria apenas em mesas de bar, de onde elas nunca deveriam sair. Oras, estou caindo em contradição? Antigamente você não tinha uma caixa de comentários para discordar de mim, faça bom uso dela. Ok, meus comentários são moderados, gosto desse micro poder. E quem não gosta? Antigamente não tinha isso.

Carta de aniversário para meu primeiro amor platônico

Querida Lady Lú,

No mínimo você estava pensando que o presente ficaria apenas naquela coisinha mirrada que te dei no almoço, o que seria bem vergonhoso se comparado ao que você ganhou de suas amigas de classe. Lembre-se daquela conversa que tivemos sobre librianos terem sempre que ser originais. Não que eu leve essas coisas zodiacais muito a sério, mas desta vez resolver colocar fé e me superar, não que tenha sido fácil. Na madrugada, pensei coisas e, por incrível que pareça, tive ideias.

Se você linda e loira (ainda que seus cabelos sejam negros-azulados) levantar e abrir gaveta onde fica o álcool (aquela atrás da Beth), encontrará seu presente. Tenho certeza que você gostará muito.

A propósito, fiquei chocado quando descobri que aquele papo de ex-modelo, cantora e atriz era verdade. Lady Lú, quem diria. Ouvi algumas faixas e entendi o porquê de você ter largado a carreira artística. Acho que como futura designer você tem mais futuro do que animando marmanjos em programas dominicais. O pior de tudo era o cabelo loiro oxigenado. Hoje sim, com a cabeleira devidamente escurecida e completando 21 anos, posso chama-lá de mulher de verdade.

Agora é sério, não vou mais te comparar a cantora Lady Lu. Há muito queria dizer que desde que você apareceu no meu mundinho, minhas descidas rumo ao Mackenzie tem sido bem mais legais. Sei que no começo você olhou com bastante desconfiança pra minha quase obrigatória companhia, mas devagarinho ganhei sua confiança. E você, o meu coração. Foi muita sorte conhecer uma garota tão especial assim e acredito que conhecerei poucas como você em toda minha vida. É incrível como uma pessoa específica pode fazer um mesmo ordinário caminho parecer tão mais divertido e especial. O poder real estaria em você ou em como te vejo? Isso realmente importa? Para mim, não. Fico feliz só de saber que ainda faremos tudo isso várias vezes.

Menina Luciana, parabéns pela maioridade definitiva. Aproveite porque 21 anos só se faz uma vez na vida, assim como todas as outras idades. Que comentário besta esse…

Beijão,

Sr. Carlinhos
21/10/1999

Orelha da Lú

Um menino 4 olho

No documentário brasileiro Janela de Alma, o diretor alemão Wim Wenders diz em seu depoimento que nunca deixou de usar óculos, porque acostumou a ver o mundo emoldurado. Para quem não possuí o hábito de usar molduras oculares em tempo integral, esse tipo de declaração soa bastante bizarra, mas o diretor de Asas do Desejo, dentro da sua realidade, está coberto de razão. Só quem usa óculos há muito tempo entende a relação que se tem com ele.

Quando ainda era bem criança, minha mãe dizia para não olhar uma lâmpada acesa, pois tal prática estúpida me faria ter que usar óculos. Ela só não sabia que eu morria de vontade de usar. Admito poder estar errado, mas acredito que olhar pra luz não deva causar miopia, mas contrariei minha mãe e, com 4 graus em cada um dos olhos, estreei meu primeiro par de óculos aos 6 anos de idade. Eles eram redondinhos e tinham o Pato Donald desenhado em cada umas das hastes. Não me lembro a razão de ter escolhido esse modelo, mas não poderia ter começado pior. Além do automático apelido de “4 olho” que ganhei ao passar a usar óculos, meus primeiro par tinha uma espécie de alça nas hastes para que os óculos ficassem bem presos nas orelhas. Só que na ponta das alças tinha uma pequena bolinha dourada que era facilmente confundida com um brinco. Pronto, além de “4 olho” eu também era menininha. Esse primeiro par de óculos durou cerca de 1 ano. Quebrei-o junto do meu nariz num pequeno acidente escolar. Outros tantos vieram na sequência e nunca deixei de usá-los daí para frente.

Usar óculos atrai diversos estereótipos e acho que abracei a maioria deles com certo prazer. Eu nem era inteligente na escola, mas todos me chamavam de cientista,  geninho, estudioso, tudo porque eu carregava em meu rosto uma armação acrílica com um par de lentes fundo de garrafa. Mas eu também era o “nerds” e por isso apanhava dos meninos mais velhos e valentões. Sim, soa muito clichê de televisão, mas é real e acredite, o que mais me incomodava não era ser chamado de “nerds” e sim o plural usado erroneamente no apelido. Tentar explicar que o certo é nerd, no singular, só piorava a coisa para o meu lado.

Apesar de todos os percalços, em nenhum momento me arrependi ter começado a usar. É difícil explicar, mas acredito que sempre tive a noção que o problema não eram os óculos e sim o julgamento das pessoas. Mesmo na adolescência quando fui um moleque bastante feio, nunca cogitei a ideia de parar de usá-los, não por amor ou convicção, apenas porque tinha a noção que tirá-los não ia resolver nada. Já no início da faculdade, tentei usar lentes de contato e, em apenas 3 dias, descobri que o trabalho que dava para usar aquela porcaria, não compensava meu esperado ganho estético. Voltei atrás sem pestanejar.

Na prática nunca me incomodei de verdade em usa-los. Pra mim sempre foi um hábito automático colocar ao acordar e tirar para dormir. Fácil assim. Durante o dia, raramente me lembrava de estar com eles no rosto. Depois de adulto os estereótipos começaram a me incomodar um pouco, mas isso nem chegou a ser um problema. Nada que uns piercings na orelha e meia dúzia de palavrões não puderam resolver. E meu grau nem era elevado. Estabilizado desde os 23 anos, tinha menos de 1 grau em cada olho, ou seja, eu usava óculos não por gostar de usá-los, simplesmente por não me incomodar com isso e até me sentir bem por estar enxergando melhor.

E tiveram algumas compensações bem bacanas. Por exemplo, é impossível beijar alguém sem que as lentes de seus óculos fiquem todas ensebadas. Em um não–relacionamento que tive (acredite, isso existe), quando estava sentindo saudades da cabrocha, dizia no Twitter, “Meus óculos andam limpinhos demais…”. Era legal também tirá-los às vezes e ouvir comentários do tipo, “Olha, não sabia que você tem olhos verdes!”.

Após 24 anos de uso ininterruptos e uns 8 pares diferentes, no final de 2009, acordei um dia e resolvi que não queria mais usar os óculos. Sabe quando uma mulher corta o cabelo e acha que vai mudar a vida? Foi mais ou menos baseado nesse princípio idiota que tomei minha decisão. Eu tinha os meios, condições físicas e financeiras e a força do argumento “por que não?” ao meu lado. Entre a decisão e a cirurgia, foram apenas 20 dias. Lasik no esquerdo, PRK no direito. Um sucesso.

Há pouco mais de três meses vivo sem esse peso extra no rosto. Minha sensibilidade à luz aumentou consideravelmente, mal consigo ficar de olhos abertos num dia de sol, mas pelo menos agora é mais prático usar os óculos escuros. Descobri que sinto falta dos óculos mais a noite do que de manhã, não foram poucas as vezes que tentei tirá-los antes de dormir. Até hoje é comum eu procurá-los quando saio do banho. As vezes ainda passo o dedo no nariz para mexer na armação, ainda que isso mais pareça mais uma leve coçadinha. Eu não sabia o quanto é difícil ficar com os olhos abertos ao andar contra o vento, cada poeirinha parece um pedregulho. E agora todo mundo sabe que meus olhos são verdes, o que tornou a descoberta um tanto sem encanto.

Enfim, no geral, viver sem óculos é quase a mesma coisa. Há muitos anos parei de ser chamado de “4 olho”, andar na chuva agora é melhor e não passei a ser mais desejado pelas mulheres por estar sem eles. Se eu tivesse só cortado o cabelo pra mudar a vida, certamente teria saído bem mais barato. Se bem que nem cabelo para cortar eu tenho. Deixa assim então.

Meus óculos

Quando um filme iraniano vale um emprego

Entre 1999 e 2000 peguei gosto em ir ao cinema, principalmente sozinho. E, apesar de nessa época os Cinemarks estarem bombando, nunca fui chegado em cinema de shopping, por isso não foram poucas as vezes que eu saí da inóspita Z/L para ir ao Belas Artes ou Espaço Unibanco e assistir um filme aleatório. O importante era que fosse um filme alternativo, o famoso filme “iraniano”, ou como um amigo falou uma vez, “Carlão, puta que pariu, você só assiste essas merdas de filmes uraniano!”.

No entanto sempre tive o bom senso de não cair na armadilha de ver qualquer filme conceitual sem sentido. A película precisada d’algo mais pra me chamar atenção. Assisti muita coisa bacana e muitas outras bem ruins, mas posso dizer seguramente que o filme que mais me encantou na época foi Magnólia. E, na verdade, até hoje ele encabeça minha lista de filmes prediletos.

Lembro que quando assisti Magnólia pela primeira vez, eu não fazia a mínima ideia do porquê caralhos tinha aquela chuva de sapos no filme, mas não me importava, aquilo pra mim pareceu a redenção dos personagens, o que até estava correto, mesmo que eu na ocasião eu não tivesse o embasamento para entender.

Devido esse encantamento, fazia questão de dividir meu amor pelo filme com os outros. Logo virei o “maluco que gostou de Magnólia”. Incontáveis vezes me enfiei em discussões explicando a história e tentando convencer os outro, quase sempre sem sucesso, que o filme era legal.

Logo que assisti, fiz uma resenha sobre o filme no blog de um finado site que tive. Em 2001, numa entrevista de emprego, passei o link desse site para que o dono da empresa pudesse avaliar meus conhecimentos. Pouco tempo depois fui contratado e, em uma conversa informal, meu chefe confessou que me escolheu por conta da resenha sobre Magnólia. Não que ele tivesse achado o texto genial ou mesmo tido o mesmo encantamento que eu pelo filme, muito pelo contrário, ele me disse, “Esse filme é muito ruim. Para ter gostado dele, o cara só pode ser bom. Ninguém incompetente pode gostar daquilo”. Torpe ou não, o motivo me rendeu o emprego que estou até hoje. São mais de 8 anos trabalhando no mesmo lugar, justamente porque um dia, aleatoriamente, resolvi ver Magnólia no cinema. O próprio filme trata desse tipo de coincidência, o que torna toda essa história mais especial ainda para mim.

Uma das coisas que mais me encantou em Magnólia foi o trecho onde os personagens cantam a música Wise Up da Aimee Mann.

Por gostar de Magnólia e tantos outros filmes alternativos, ganhei fama de só assistir filmes iranianos. O irônico é que nunca ví um filme feito no Irã. Será que são bons?

Ensaio sobre o desapego

Até para o que não é bom é preciso ter dom. Para o cara que a vida toda foi certinho, é difícil virar um canalha do dia pra noite. Mesmo aquela garota linda, atraente, mas comportada, tem sérias dificuldades pra sair na balada pegando geral. Mentir, dissimular, ser apático e tantos desvios comportamentais, certamente são dons inatos que podem ou não ser exercitados no decorrer da vida.

A introdução serve pra falar de uma coisa que há tempos vem me incomodando, o desapego da geração anos 90. Talvez seja a falta de surra ou o excesso de psicologia infantil, mas o fato é que temos uma garotada entrando na vida adulta com um dom incrível de se não comprometer com absolutamente nada, seja um relacionamento, uma amizade ou uma simples promessa.

Atrás de lindos discursos sobre melhores amizades e abraços pseudo significativos, o que existe na verdade é um umbigocentrismo escroto que pode ser exemplificado por uma coisa que uma garota de 23 me disse certa vez (e me desculpe, garota, se você estiver lendo, mas é verdade), “Eu sou a pessoa mais preparada pro amor que conheço”. Como diria Boris Casoy, como alguém no alto dos seus 23 anos tem a pachorra de se considerar, de coração aberto, a “mais preparada” para o amor? Quem é preparado pro amor nessa vida? O que é ser preparado pro amor? A cabrocha, na ocasião, ainda ficou ofendida quando desdenhei da sua afirmação. Fato é que qualquer atitude dela depois disso só provou que eu estava certo. Aliás, já citei que eu sempre tenho razão?

Existe uma tênue linha que separa a imparcialidade da falta de lealdade e considero isso um dos outros graves problemas que assolam essa juventude. Nem quando eu tinha 20 anos de idade, acredite, dei as costas pra alguém que me ajudou, muito menos por um amigo de balada ou mesmo uma peguete qualquer. Amigo é patrimônio, lealdade é o alicerce e reciprocidade é a manutenção. Sem essa tríada, não rola.

Outro pecado que me incomoda é o da omissão. Uma vez que se cansou da coisa, para que ir lá dar uma explicação, uma satisfação ou sei lá o quê? Muito mais simples sumir, se omitir, dizer que não é nada. Mais do que falta de consideração, isso mostra uma certa preguiça mental, afinal é muito mais simples não dizer nada do que parar pra pensar o porquê de tudo ter acabado. Ou pior, a pessoa se dá ao trabalho de inventar uma mirabolante história, quando a verdade simples seria tão mais fácil pra todos.

Citei três exemplos de coisas que além de ter vivido, sei de amigos com histórias parecidas. Em nome do desapego e de relações leves e sem rótulos, valores importantes viraram commodity para discursos pré-fabricados. E isso não é simplesmente imaturidade, é resultado de uma criação com valores omissos, falta de exemplos, tudo regado a muito leite com pêra e sucrilhos vitaminados.

Não vou mentir que escrevi esse texto preocupado com meus vindouros descendentes ou mesmo com o futuro do Brasil. Minha motivação maior é que não acompanhei o ritmo de meus amigos da mesma geração e acabei tendo de me relacionar com pessoas as vezes 10 anos mais jovens que eu. E mesmo que tenha uma boa surpresa aqui outra acolá, no geral tenho ficado cada vez mais decepcionado com o que encontro. Não sei ao certo qual a solução, mas ainda que essa não seja minha natureza e eu não tenha o dom como citei no primeiro parágrafo, talvez eu deva me tornar um ser desapegado também. Gente velha ainda consegue aprender?