Parabéns pra ninguém

Não há inocência, não há respeito. Uma geração formada por crianças, não importando a idade real, como diria meu amigo Juliano Jubash, comemoram todos pimpões o halloween ou o San Patrick’s Day, mas quando chega na Sexta Feira Santa, correm comer um churrascão para exercer toda sua pseudo rebeldia e revolta para com a igreja e as tradições. Não há parâmetros para absolutamente nada, nem pra comemorar uma data que egoisticamente falando, todo miserável ser deste mundo deveria ter respeito, o próprio aniversário.

Tudo bem que acontece todo ano e não chega a ser um evento inesperado, ainda que os mais alarmistas possam sempre pensar que seja sempre o último, mas porra, em tempos que Rivotril vende mais que analgésicos, todo mundo deveria, no mínimo, ter respeito com esse ano a mais sobrevivido. E como as pessoas demonstram isso? Fodendo uma coisa simples, inocente e sincera, o momento do “parabéns pra você”.

Você vai num aniversário de um caboclo de 30 anos e na hora de apagar as velinhas, já começa um infeliz a tumultuar cantando errado ou começando a música novamente. Custa cantar a droga do parabéns direito? Claro que não! E ainda que não houvesse o infeliz que tumultua, sempre existe o mais abominável e nefasto de todos, aquele que acha super engraçado falar “é pica! é rola” no lugar do “é pique! é hora” e “no seu cu!” ou invés de “ratimbum!”. Quando se tem 14 anos, falar tantos palavrões em tão curto espaço de tempo parece transgressor, ainda que deveras deselegante com seu priminho mais novo ou sua avózinha de 80 anos. Agora, com mais de 20, é simplesmente inaceitável essa deplorável conduta. Cresça!

Outra coisa que me preocupa é uma geração de jovenzinhos, esses de idade mesmo, que por alguma distorção da realidade – provavelmente causada pela canção da Xuxa – aprenderam que ao invés de se cantar “é pique!”, se canta “é big!”. Que porra é essa? Viral do supermercado Big? Tudo bem que nosso parabéns pra você é uma versão da música americana Good Morning to All, mas a brasileira foi feita por uma senhorinha no ano de 1942 e nunca que nessa época ela enfiaria a palavra big na letra. Concordo que o sentido do “pique” é altamente questionável, mas porque teríamos o “big”, em inglês, jogado assim do nada no meio da letra?

Outubro tá chegando aí. Por gentileza, quem tiver a honra de ser convidado a prestigiar meu natalício, saiba desde já que deve cantar a música em sua versão original, sem distorções maliciosas, conforme abaixo:

Parabéns a você,
nesta data querida,
muita felicidade,
muitos anos de vida!
É pique, é pique!
É pique, é pique é pique
É hora, é hora!
É Hora, é hora, é hora
Rá – tim – bum!

Note que na letra é desejado ao aniversariante “muita felicidade”, no singular. Assim Dona Bertha, autora da versão em português, queria. Assim eu, Carlos Sivalli Ignatti, quero. Dispenso também o complemento “Com quem será que o Caco vai casar…”. Qualquer um que me conhece sabe que morrerei solteiro, tornando dispensável esse trecho.

  1. Muuuuuito bom!! Tudo o que eu sempre achei! Sempre odiei essas versões “novas” de “Parabéns pra você” (essa do “big” então, pior ainda).

    Dále Caquito!

    • maio 20th, 2010 8:56am

    Você mencionou porra e caralhos. É absolutamente inadmissível uma pessoa da sua idade (você já está com 45, né?) ser tão transgressora. :P

  2. mto bom o texto. também acho ridículo quando ficam caçoando da música, e por consequência, do aniversariante. mas confesso que quando é meu aniversário, me sinto constrangida com ela. afinal, enquanto todos cantam, batem palmas e olham pra vc, o que vc faz? fica sempre meio tonto, meio sem saber pra onde olha, ou canta e bate palmas pra vc mesmo? ahhh, minha timidez que não me permite aproveitar essa músiquinha quando eu sou o centro das atenções. me dá vontade de sair correndo! rs.

  3. Peraê, não entendi. Você não quer “muitas felicidades”, só quer uma? Por quê? Neste caso quanto maior o número de felicidades (logo, quanto mais felicidade) melhor, não?

    Acho que até outubro dá tempo de aprender a cantar ;)

    Beijos.

    • Caco
    • maio 20th, 2010 11:26am

    @Sarah Kelly
    A felicidade, no singular, tem uma função mais abrangente. O “muita” não tem conotação de quantidade e sim de intensidade. =]

  4. @Caco
    Chatão… Vou cantar no singular, porque você tá mandando, mas o desejo é plural, e nesse ninguém manda :)

  5. Minha amiga carioca que canta “é big” acrescentou:

    “…E não tem a perguntinha infame que vocês, paulistas, proferem: – Então como é que é?
    E ainda respondem: – ÉÉÉÉ!!!!! “

  6. Ainda bem que nunca tive o desprazer de ouvir alguém cantando “É big!”

    • Tata
    • maio 21st, 2010 6:49am

    Adorei! Concordo plenamente. Acho que eu sempre pensei isso, mas nao sabia, ate ler o teu texto, qual era o motivo real de eu detestar o Parabens. hahhaha

  7. @Carolina Molina
    cacete, quanta cagação de regra! Eu sou carioca e sempre cantei “então como é que é???”

  8. Mas sim, concorto que “é big” é um absurdo sem precedente.

    • Anitta
    • maio 28th, 2010 6:50am

    Excelente texto!! Super concordo com vc… odeio tbm aquelas musiquinhas q cantam depois como o “derrama senhor” (ou pros mais infames dê Brahma senhor”) acho um saco dá vontade de cuspir no bolo só de vingança!!

  1. maio 20th, 2010