Uma carta sobre nada

Querido Jerry,

Sem ainda ter ideia da importância que você viria a ter num período da minha vida, ouvi falar do seu show em 1998 por meio de uma colega de trabalho que te descreveu como uma pessoal maldosa e com piadas ótimas. Meus interesses na época eram outros e meu humor bem menos refinado de forma que, mesmo ouvindo seu sobrenome tantas vezes nos anos seguintes, só fui assistir e apreciar seu trabalho 10 anos depois.

No final de 2008 fui apresentado à insônia e depois que você a conhece, dificilmente ela vai embora da sua vida. Era angustiante a experiência de deitar na cama e ficar rolando de um lado para o outro fritando nos próprios pensamentos. Óbvio que existiam soluções farmacológicas para resolver isso, mas até então eu não tinha orientação médica de como administra-las, portanto tinha que improvisar.

A única forma de pegar no sono era desligar o cérebro, deixa-lo vazio, sem nada. Por intermédio e insistência de uma amiga da pós-graduação que emprestou todos os DVDs da série, uma noite ao me deitar e tentar pegar no sono, assisti um episódio do seu show sem muita expectativa. Acabei vendo a primeira temporada inteira naquela madrugada.

Ainda que o conceito da “série sobre nada” ainda não estivesse alí naqueles primeiro episódios, vi um tremendo potencial nas nove temporadas que eu tinha em mãos. Aquilo limpava minha cabeça de forma que eu conseguia pegar no sono, bastando dois ou três episódios por noite. Desde então, atribuo créditos a você por ter me ajudado a dormir na pior fase da minha insônia e depressão.

Assisti todas as temporadas num período de pouco mais de dois meses e o mais curioso é que eu estava tão transtornado nesse período, que mal me lembro dos episódios. Salvo uma cena ou outra, não consigo conectar muitos fatos a série. Sei o que é o Festivus, como é estacionar no estilo Constanza e o que é ser mestre do próprio domínio, mas diante da quantidade de cenas memoráveis, isso é pouco. Pensando bem, me lembro bem do George, talvez porque minha auto-estima seja bem parecida com a dele.

A ironia desta carta é que tenho noção que se você realmente a lesse, certamente faria algum comentário maldoso e engraçado sobre minhas amigas, sobre mim, minha insônia e o país onde moro. Seria justo, graças a esse seu tipo de comportamento que pude conseguir dormir em várias noites. Pensando sobre nada.

Caco Ignatti
27/05/2010

Jerry & Geroge & Elaine & CozmoFoto: TC

  1. É por essas e outras que eu não canso de recomendar o http://dailyseinfeld.tumblr.com

  2. A abertura de cada episódio com o stand up do Jerry era sensacional! E a arte de fazer observações – até bem óbvias, mas ao mesmo tempo inteligentes – sobre o dia a dia e, mesmo depois de uma década, arrancar risadas sobre aquelas situações é algo extremamente respeitável. Adoro esse programa!

  1. May 28th, 2010