A menina do telemarketing

Todos os meses era a mesma coisa e eu gostava assim mesmo. Ela me ligar com a mesma rigorosa frequência, permitia premeditar minha reação no inútil ritual de conversar com a menina do telemerketing da operadora de cartão de crédito. Ok, nunca era a mesma pessoa e a menina poderia ser até um menino, mas na minha cabeça existia uma entidade chamada “menina do telemarketing” que poderia trabalhar em qualquer empresa e ter qualquer idade.

E, em todos os seus telefonemas, a menina do telemarketing insistia que eu precisava urgente ter um cartão de crédito. Eu já tinha meus 25 anos nunca havia nem cogitado ter um, simplesmente porque herdei toda a tosquice do meu pai. Aprendi a comprar as coisas à vista na base da ação e reação, gastou e ficou sem. Meu pai era operário numa fábrica de sapatos e criou três filhos com essa filosofia, impossível que ele estivesse tão errado assim.

Mas a persistência era uma das virtudes da menina do telemarketing e mensalmente ela me ligava pra defender sua bandeira – fosse ela Visa ou Master – com um empenho comissionado de fazer inveja a qualquer soldado islâmico em sua da jihad. Um dia ela me disse que eu estava perdendo na vida. Segundo ela, com o cartão de crédito daquela promoção, eu poderia parcelar minha compras e até usar exceder meu limite em até 7 dias sem juros ou algo do tipo, não lembro e não importa. Respondi que não parcelava nem o IPTU do meu apartamento e que não gostava de dever para burguês. Disse também que meu pastor da igreja ensinou que dinheiro de plástico era invenção do Diabo.

Ela não se comoveu com minha argumentação barata. Do alto de seu headphone babado, a menina do telemaketing afirmou, na maior cara de pau, que muito em breve todo cidadão brasileiro teria um cartão de crédito e que eu seria o único a ficar fora dessa gostosa brincadeira consumista. Empolgado com as réplicas e tréplicas daquela prosa, perguntei se era possível fazer um cartão de crédito sem certidão de nascimento ou RG, afinal, tá cheio de brasileiro que não faz parte nem das estatísticas. Como fazia tempo que havíamos saído do script, a garota do telemarketing permitiu-se abusar de toda sua franqueza e responder, “Nós aprovamos cartões com limites de 200 reais, Sr., qualquer um pode ter”. Limitei-me a dar uma risadinha sem graça e agradecer a oferta, recusando-a mais uma vez. Desliguei sem esperar uma resposta e, em ligações posteriores, nunca mais me dei ao trabalho de argumentar.

Alguns anos depois, por conta de uma viagem ao exterior, fui obrigado a fazer um cartão e fiquei esperando a menina do telemarketing me ligar. Como eu tinha uma certidão de nascimento, um RG e agora até um passaporte, fui agraciado com um cartão de crédito internacional com limite superior a 200 reais e até anuidade grátis para sempre. Mas foi um processo mecânico, frio e sem argumentação. Eu precisava do cartão e ela tinha um para me oferecer, monótono e simples assim. A partir daquele momento eu fazia parte da gostosa e irresponsável brincadeira consumista e não me sentia feliz com isso.

Ainda que nossa relação já estivesse abalada desde a discussão social de quem pode ou não ter um cartão, eu ainda carregava um certo orgulho esdrúxulo porque até então, sempre havia negado as ofertas para ter um cartão de crédito. Sucumbir ainda que por obrigação aos encantos da menina do telemarketing, fez com que ela morresse para mim. Tanto é verdade que depois disso ela nunca mais me ligou. Hoje, em algum lugar, é ela que sente prazer por saber que estava certa desde o início. Hora ou outra, todo brasileiro vai ter um cartão de crédito. E que Deus nos ajude quando esse dia chegar.

  1. Espera só as Casas Bahia pararem de trabalhar com carnê. Deus nos acuda, onde quer que ele esteja¹

  2. O que mais me entristece é o sonho da facilidade (e felicidade) que eles venderão para os menos esclarecidos e, com isso, dobrarão os juros, já que maioria não sabe fazer contas.

    • Anny
    • junho 1st, 2010 10:18pm

    “…e que eu seria o único a ficar fora dessa gostosa brincadeira consumista.” hahahahaha!

  1. junho 1st, 2010