Ronald
Os clichês só são clichês porque têm seu valor. E ainda que não fossem os clichês mais meigos da cultura brasileira, Ronald carregava vários na ponta de língua. Frases como “somente o bom se perpetua” ou “um dia você vai dar razão pra mim” eram lugar comum em qualquer discussão com ele. Ronald adorava discutir, tanto que até hoje não ficou claro se ele acreditava mesmo em algumas coisas que defendia ou se fazia isso apenas pelo prazer da retórica.
No geral, a vida foi bastante difícil para Ronald. Uma infância muito pobre, uma mãe descompensada, um pai ausente que o introduziu ainda jovem no ofício de operário de fábricas de sapatos. Ronald passou a vida toda cheirando cola profissionalmente e nem por isso enlouqueceu. Tanto que se casou e, mesmo com o parco salário de operário, criou sem luxos seus três filhos de forma excepcional. Não que ele fosse o pai da família Doriana, mas pela trajetória de vida e exemplos que teve em sua formação, pode-se até pra dizer que Ronald, ao seu modo, era um doce.
Mas a verdade é que ele era um cara difícil de se lidar. Com opiniões duras e reacionárias, era quase impossível se encaixar no padrão de qualidade que Ronald esperava do mundo. Tudo e todos sempre mereciam algum comentário ácido, principalmente seus filhos, com quem Ronald mantinha uma relação bastante delicada. Ainda que hoje fiquem bem claros seus nobres fins, os meios às vezes eram bem tortuosos.
Ronald era um homem de prazeres simples. Estrada, praia, cerveja, caipirinha de vodka, consertar rádios e televisores velhos, fazer pequenas obras em casa, ouvir Clara Nunes e Orlando Silva e limpar os carburadores de suas Variants e Brasílias velhas. E num certo momento da vida ele alcançou uma a tranquilidade para desfruta-los. Com a família estruturada, seus filhos bem criados e independentes financeiramente e alguns pequenos luxos conquistados, ele pôde, enfim, permitir-se bons momentos com maior frequência.
Aí novamente a vida veio dificultar as coisas. Coração, rins e um monte de outras coisas não mais funcionavam direito naquele corpo. Em poucos anos, Ronald se viu totalmente privado de todos os poucos prazeres que tinha. Não podia beber, viajar ou mesmo uma caminhada mais longa. Restou-lhe os suspiros constantes e o arrastar de chinelos pela casa. Uma sombra do guerreiro que já tinha sido.
O que move qualquer pessoa é a busca pela manutenção dos seus prazeres. Quando quase todos eles deixam de existir, o corpo cansa de tanto viver. Na madrugada do dia 08 de junho de 2002, há exatos 8 anos, eu recebia do médico a notícia que Ronald havia morrido. Não era exatamente uma surpresa, há dias ele estava na UTI. Mas isso não minimizou o impacto da notícia da perda de um pai. Nem eu nem minha mãe choramos na hora, tampouco minhas irmãs que souberam por telefone logo depois.
Não que eu estivesse segurando as lágrimas antes, mas só no momento que soltei a alça do caixão e vi Ronald ser enterrado que eu desabei. Saí de perto, sentei no meio fio de uma das ruazinhas internas do cemitério e chorei por vários minutos. Depois pedi que meu amigo Rodrigo me levasse embora porque não havia mais nada que eu quisesse ver ali. Foram aproximadamente 31km de um cúmplice e total silêncio até minha casa, naquele ensolarado e frio final de tarde.
Hoje, 8 anos depois, ainda penso muito em meu pai. Quando ele morreu não estávamos nos falando, mas não cairei no clichê de dizer que vou carregar essa culpa para sempre. Tínhamos a relação que a cabeça dura dele e a minha imaturidade permitiam, o que não significa que eu não sinta falta dele e admita que realmente ele tinha razão em muitos de seus clichês. Cada ano que passa, me vejo mais parecido com ele, o que por si só já é um tremendo clichê. Talvez por isso às vezes eu sonhe com nós dois conversando sobre as coisas que tenho feito da vida, sempre em um tom amigável. Outro dia mesmo sonhei que assistíamos Homem de Ferro 2 no cinema e ele até que gostou. Na realidade Ronald odiaria esse filme. Mas vai saber, talvez ele dissesse que gostou só pelo prazer da retórica. E é disso que sinto falta.
Foto das fotos: Mario Amaya


Não sei o que é perder um pai, e também não conheci o seu, mas você me fez sentir muita vontade de bater um papo com o Ronald. E se você é parecido com ele, então eu tenho certeza que era mesmo um cara muito especial.
Lindo texto (e nunca vou me cansar de escrever essa frase aqui).
Beijos.
Eu sei que não sou parâmetro, mas eu chorei.
E lembrei daquele grande poema de Drummond, aquele trecho que chama Ausência. Mas aí não, me corrigi rapidamente, na oitava lágrima. É caso de tocar a boa Naquela Mesa e abrir uma Original. Porque é o mais simples mesmo, o miudinho, porque não é o formidável, é o essencial.
Vim parar aqui pelo twitter. Só faz dois anos que meu pai se foi e a sensação que tenho é que, nesses casos, o tempo não cura (só para usar um clichê). Meu pai também era um amável clichê: caminhoneiro, fã de sertanejo e com um coração enorme.
Belo texto.
Adorei o texto. Confesso que sempre vejo seus links dos posts no Twitter mas nunca tinha lido nenhum post inteiro. Engraçado eu ler justamente este.Incrível como essas coisas mexem comigo. Há 9 anos(e alguns meses) minha mãe-vó partiu deixando um ‘rombo’ no lugar e a cada ano que passa a saudade só aumenta… Lindo texto, demais mesmo. Passarei a ler assiduamente agora.
Caco, já te conhecia na época em que isso aconteceu. Mas, na verdade, posso dizer também que comecei a te conhecer de verdade quando isso aconteceu. Naquela semana, mesmo com todos os seus problemas você me ajudou muito. Até trabalhar no final de semana você trabalhou. Certeza que o Sr.Ronald criou você direito.
Caquito, o texto é ótimo.Você conseguiu sintetizar muito bem quem era Ronald. Por falar no prazer da retórica… você herdou isso dele, e ainda por cima lapidou! O pai, na sua simplicidade de criação, quarta série completa, sabia discutir qualquer assunto, de política a religião, tinha sempre opinião firme para tudo..e o melhor…tinha argumentos. Ele nem imaginava (ou talvez soubesse) que, ao criar-nos em meio as esses “diálogos socráticos”, acabou nos tornando pessoas de opinião. Num mundo onde a maioria sabe de nada e fala de tudo, ter opinião é herança valiosa. Obrigada pelo texto, irmão.
Realmente os anos passam e a saudade aumenta. A dor permanece intacta, chega a arder como nos dias em que a ferida foi aberta, mas o melhor é saber que o seu Ronald e o meu Manoel estarão sempre vivos em algum lugar, mesmo que este lugar seja apenas o nosso coração. E pelo jeito eles não queriam lágrimas, uma breja a eles!
Lembro perfeitamente desse dia, desde a hora que vc me ligou avisando, até a noite na sua casa, com Marcelo, Juliano e vários outros amigos seus. Lembro da hora que você sentou no meio fio também.
E lembro, principalmente, do silêncio da volta. Eu sabia que não era hora de falar nada, e apenas falei que você podia contar comigo sempre e pronto. Dos clichês que a gente costuma dizer nessa hora, esse foi verdadeiro, saiu do coração.
E continue contando, seu puto – que me deixou de olhos molhados.
Caco,
essa é uma dor que só quem já passou por ela sabe o que é. E mais, cada um tem a sua, não dá pra comparar, dizer “eu sei como é” chega a ser meio leviano. Não sou escritora, nem tenho vocação pra tal, escrevo (mal) para expulsar meus Gasparzinhos e taí um tema que não consigo tocar. Tento. Em vão. Você conseguiu. Sem ser piegas. Sem cruzar essa linha tão delicada.
bj
A.
Digo apenas o seguinte: “admiramos os antigos não porque soubessem mais do que nós, mas porque souberam antes”.
Abraços.
Eu queria poder dizer algo fabuloso, mas o sentimento que você expôs no texto me calou.
Você não precisa ser modesto, é um lindo texto e um sincero sentimento.
Tive vontade de recortar várias frases que você disse – como sempre faço – apontando as que mais me tocaram e fazendo alguns comentários.
Hoje vou destacar apenas uma: “Tínhamos a relação que a cabeça dura dele e a minha imaturidade permitiam.”.
Ter clara essa ideia te dá a possibilidade de não carregar nenhuma culpa, admirá-lo e ainda sentir saudade, como você mesmo disse com a maior clareza.
Com esse caminhar cheio de acertos e cheio de erros, vocês fizeram a história de vocês.
Bom que você se sinta capaz de falar tão corajosamente sobre o assunto.
Fiquei emocionada.
tambem chorei – vejo o quanto ele foi importante pra ti – faz tanto tempo e a tua saudade e tao presente. vejo tambem claramente que voce encreveu para que ele leia. gostei muito! é uma delicia ler o que os filhos nos escrevem…….
constancia (mae da sa)
Esse é um dos textos mais sinceros que já li. Essa saudade…ah,sentimento tão simples e complicado ao mesmo tempo. Mas pode ter certeza que seu pai está muito orgulhoso de você.
Mais um texto genial. Seu pai era uma pessoa muito especial, mas nada óbvia. E você conseguiu descreve-lo em poucas linhas toda a sua complexidade e generosidade. Tenho certeza que mesmo com os seus padrões de qualidade ele estaria muito orgulhoso do filho…como tenho certeza que sempre esteve…
Caquito, que te puedo decir….. Está simplesmente MARAVILHOSO o seu texto….Beijos
Carlos, estou emocionado e orgulhoso. Orgulhoso e com saudades pois, quando ví a fotos, lembrei-me que quando criança, também andei de mãos dadas com o Ronald.
Emocionado pelo conteúdo do texto e orgulhoso por você, suas irmãs e sua mãe.
O Sérgio Miranda e o Newton frisaram bem, o Ronald soube antes por ser mais antigo porém, ele foi especial e nada óbvio, e, com certeza está orgulhoso de todos voces.
bj do tio
Oi Carlos, que maravilha a sua homenagem. Melhor ainda foi que voce entendeu que o seu relacionamento com seu pai, meu irmao, estava exatamente onde so era possivel estar devido a ambos serem o que eram. Nao poderia ter sido diferente, e nada poderia ser mudado agora. Nao ha necessidade para sentimentos de culpa ou arrependimentos.
Nao se esqueca porem que ao lado de um bom homem e de um bom pai, existe uma boa mulher e uma boa mae.
Que Deus te abencoe sempre. Sua tia Marta
Eu vi o texto pouco depois de você ter postado, mas às vezes, quem diria, tenho dificuldade para escrever… Fico feliz por você enxergá-lo em você, querendo ou não, somos muito do que nós pais são ou foram, mas nem sempre conseguimos reconhecer isso.
Que ele continue sendo presente em você e até, ouso dizer, vivendo em você.
Sabia que seu pai gostava de variants, mas não sabia que seu pai era parecido com vc. Consigo ver semelhanças pelo que descreveu. E acredite, até mesmo em alguns comentários “ácidos”… rs. Ele e Gizelda criaram vc bem.
Texto bacana demais.
Esse texto me faz ter saudades do Ronald assim como tenho saudades voce Caco.
Essa é a segunda vez que leio o texto e chorei mais uma vez. Muito lindo o texto Caco. Muito sincero! Vc me encanta!
Não digo que isso ajudou a ver o meu pai como um homem melhor pelas coisas que ele fez e faz, mas sei que ficaria sim triste em perdé-lo. Seus textos envolvem as pessoas e isso é muito legal, ótimo e díficil de se encontrar nos dias de hoje. Espero que seja qual for o tipo de lugar que o seu pai esteja agora, seja bom. Muito bom mesmo.
Muito bonito o seu texto. Fez-me lembrar de como foi perder minha mãe.
Juro que tentei não chorar, foi em vão. Há 15 anos perdi meu pai e por mais cabeça dura e estourado que ele fosse, são dessas coisas que sinto falta. Meu pai passou 6 meses internado e cada dia que passava seu estado era pior. Eu e minha mãe fazíamos revezamento para cuidar dele, pois como morávamos longe de onde ele estava internado ficaria cansativo demais para só minha mãe ir e voltar todos os dias. Justamente no dia em que eu ficaria em casa, minha mãe liga pedindo para que eu aparecesse ao hospital, pois meu pai estava partindo. De Guarulhos até a estação São Joaquim foi como se eu desse a volta ao mundo! Meu pai me esperou chegar para poder ir embora. Fiquei tão sem chão que nem conseguia chorar. A primeira coisa que fiz foi ligar para a minha amiga Patrícia e pedir que ela fosse ao meu encontro. Outra espera sem fim… Continuei sem chorar, estava em estado de choque. No mesmo dia o corpo do meu pai foi para Mogi das Cruzes, outra via sacra. Aquilo tudo parecia não ter fim. Céus! Prosseguiu-se todos os protocolos até o enterro, meu pai estava sorrindo no caixão, dava para perceber que ele estava aliviado por não precisar sofrer mais. Finalmente a hora do enterro. Quando fecharam o túmulo, meu mundo desabou. Foi uma semana inconformada com a ida do meu pai-herói. Há tempos que eu não chorava por causa dele, Caquinho, mas seu texto me fez relembrar tudo isso. Ultimamente só me vinha lembranças boas dele, mas hoje me bateu a saudade de tudo que vivi com ele. Pai, esteja onde estiver saiba que o tenho como exemplo e que eu te amo demais!
=’[