Pegadinha do Mallandro

PistolãoFoto: Paula Ragucci
Era fevereiro de 2009 e a festa da carne rolava solta. Em vez de curtir como folião e encher a cara, tive a infeliz ideia de convidar uma nativa de Osasco para ir ao cinema. A cabrocha tinha lá seus 27 anos e só havia visto três filmes na telona em sua vida. Começou com Super Xuxa contra o baixo astral, passando por Onze homens e um segredo e finalizou com estilo vendo 10.000 AC. Aí errei na mão e a levei para assistir O lutador, de Darren Aronofsky.

Os olhos dela carregavam uma mistura me medo e fascinação. Foi uma surpresa p’rela saber que a rua Augusta tinha cinema, bares e um monte de emos feios no lugar das prostitutas que antes transitavam na região. Mesmo assim ela estava com medo de ir a pé da av. Paulista até Espaço Unibanco na rua Augusta, mas acalmei a cabocla explicando que circulo na região há anos e que não havia perigo de andar por ali.

Como previsto, a osasquense não entendeu porra nenhuma do filme. Ficou achando que saímos de uma sessão de cinema-porrada no estilo Jean Claude Van Damme. Para poder aguentar uma mina limitada assim, convidei-a para beber num dos botecos próximos. Aquele chato medo de circular pela região persistia na garota, mesmo que eu insistisse que a região era segura.

Cervejas depois, saímos ébrios do bar rumo ao carro dela, estacionado na al. Santos. Novamente a questão sobre a segurança de se andar na região foi levantada. De saco cheio, insisti que não havia perigo algum. Mas o medo atrai coisa ruim. Ao nos aproximarmos do veículo dela, contrariando tudo que falei, um casal de galerosos nos abordou truculentamente dando voz de assalto.

O meliante falava alto, rápido, grosso e me chamava de playboy filho da puta e de todos os outros clichês que a criminalidade usa. Só faltava uma coisa para fechar a equação para um assalto comum: uma arma. Foi aí que descobri o poder da indústria farmacêutica e suas incríveis cápsulas da calma e da felicidade induzidas. Com a serenidade de um monge tibetano, questionei o margina, “Viu, mas onde está sua arma?”.

A osasquense ao meu lado tremia em silêncio. A mina do mano nada fazia. Eu aguardava uma resposta para dar procedimento ao ritual do assalto. O meliante, um pouco hesitante, respondeu que a arma estava escondida atrás dele. Pedi então que mostrasse. Ele respondeu que se sacasse a arma, seria pra me matar. Respondi gentilmente que preferia levar um tiro a ser assaltado na base do grito.

Poucos e intermináveis segundos seguiram enquanto ele colocava a mão atrás da camisa para pegar algo. Pela primeira vez desde a abordagem me senti preocupado, mas achava que mesmo que brotasse uma arma dali, eu só teria que entregar a carteira e ir para casa com o orgulho ferido e uma osasquense em choque. No entanto, a rápida volta da mão do assaltante trouxe outra surpresa.

Com um sorriso no rosto e uma atitude fanfarrona, o ordinário do margina, fazendo uma arma de mentira com os dedos, disse para mim, “Rá! Eu não tenho arma!”, e saiu andando com sua amásia, como se aquilo tivesse sido uma pegadinha do Sérgio Mallandro. Ainda que a vontade fosse espancar o imbecil, não quis abusar da sorte. A osasquense estava atônita e trêmula, sem reação nem pra chorar. Seguindo o climão descontraído do momento, perguntei para ela, “E aí, vam’bora?”.

O margina ainda foi perseguido por um grupo de taxistas que estava próximo e apanhou feito boneco de Judas em sábado de aleluia. A osasquense, mais tarde, disse que aquela havia sido a noite mais emocionante da vida dela. E eu aprendi que as vezes é melhor ficar em casa jogando videogame do que sair com uma mina só pra dizer que tive um encontro. Tinha tudo pra dar errado e deu.

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  • Comentarios (10)
    • Hambrosioo
    • agosto 27th, 2010 3:01am

    Muito bom. Facilidade nata em envolver o leitor nos textos. As vezes sério, por vezes cômico, mas sempre recomendável.
    Abraço do @hambrosioo

    • Roberta
    • agosto 27th, 2010 8:39am

    Caco… que história boa! Ha ha ha! Me diverti! Poxa, agora eu entendi a sua pergunta do tuí esses dias: quem nasce em Osasco é o que? Diante do seu texto, tenho uma resposta: mané!

    • Rafz
    • agosto 27th, 2010 9:39am

    Haha! Me lembro muito bem de quando você contou esta história lá na redação… Vem cá: se não me falha a memória, a tal osasquence é a Gatinha Leporello, não?

  1. Muito bom cara!
    Eu lembro de vc contar essa historia…
    Eu acabei rindo igualmente!

    HAHAHAH muito bom mesmo!

    Abraços
    Shaw

  2. daria um belo curta!!!! pqp! só vc mesmo pra querer ver a arma antes de concordar em ser assaltado! que bom q mesmo parecendo errado, deu certo (vc tá aí, vivinho da silva) =D

  3. Envolvente e um humor na medida! Gostei do texto. Parabéns! Abraços ;-) ~

  4. Nos dias de hoje, tiro anda menos perigoso que dedada. #ficadica

  5. História bacana e texto super bem escrito. Mas ó: Essa mina aí é mto tonta!!! Isso não é exemplo de osasquense padrão…

    • tata
    • agosto 29th, 2010 4:44pm

    Otimo relato, Caco. Eu lembrava da historia, mas assim, em texto, eh mais emocionante. Eu ja tive duas armas de brinquedo apontadas pra mim, eh uma variacao do dedo e posso te dizer que tambem nao funciona! Mas hj em dia eu nao teria coragem de sair correndo! hehehe

    • Mel Cerozzi
    • abril 28th, 2011 3:10pm

    kkkkkkkkkkkkkkkkk…. essa história é muito boa… eu mesmo já repassei para milhões de amigos e todas as vezes dou muita risada