As intermitências de Miotto

Possuo uma antiga obsessão por calçados a ponto de julgar diversos aspectos sócio-culturais de uma pessoa, apenas pelo que ela está calçando. Por isso, a primeira coisa que me lembro sobre a Miotto é de ela usava um scarpin jeans e que ela me pareceu uma menininha bem da genérica. Isso foi em 2002 e, ainda que eu continue julgando as pessoas pelos calçados com o mesmo vigor, aprendi que às vezes é melhor dar mais uma chance.

Miotto trabalhava na mesma empresa que eu. Tínhamos um grupo de colegas de trabalho em comum, mas nada que caracterizasse de fato uma amizade. E na real, ambos não víamos motivos para isso. Miotto era mais uma jovenzinha recém chegada de Minas Gerais para estudar publicidade em SP. Eu, um nerd não assumido encantando com a recém descoberta vida regada aos excessos do álcool.

Belo dia, sei lá porque, descobri nosso gosto em comum por cinema – alternativo ou não – que nos aproximou, mas também pouco mudou nossa relação enquanto trabalhamos juntos. Até que Miotto saiu da editora e, dali pra frente, firmou-se uma gostosa amizade que rendeu dezenas de sessões de cinema pelas salas da av. Paulista.

Às vezes ela desaparecia. Não atendia o celular, entrava em algum IM, não dava sinal de vida e sumia da minha vida. Então, do nada, me ligava chamando pra sair e tudo voltava exatamente do lugar onde parou, como se nada tivesse acontecido. Vimos alguns filmes ótimos e outros tantos ruins, mas na real não importava a qualidade da película, todo encontro era bom do modo que era e funcionou muito bem até o dia que Miotto resolveu largar tudo e tentar a vida na América. Minha mãe gosta de mulheres foi o último filme que vimos antes dela viajar.

Aí tudo mudou. Noutro continente, os sumiços dela tornaram-se tão frequentes e duradouros que a amizade praticamente virou história. Não sei quanto ela, mas eu senti muita falta. Tanto que durante um bom tempo, Miotto ainda ostentou o título de pessoa que mais foi ao cinema comigo, perdendo apenas para posteriores namoradas. Depois de um bom tempo ainda voltamos a nos falar e nossa amizade até melhorou. Ainda que raras, tínhamos conversas bem mais bacanas das que as quando ela mudou de país.

Cinco anos depois de pegar avião para a terra da liberdade, Miotto me disse que finalmente viria para o Brasil fazer uma visita. Não especificou a data, de forma que, ao seu velho estilo, do nada apareceu e me chamou pra ir ao cinema. Quando fui encontra-la, ela calçava uma elegante bota cano longo marrom e o mesmo sorriso discreto de sempre. O retorno foi celebrado com uma sessão do filme O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus.

Miotto foi o sapato que mais errei na vida. Sua rápida visita ao Brasil, me fez lembrar todos os motivos pelos quais eu sempre gostei dela. Logo que chegou na América ela falou comigo e depois sumiu de novo. Daí entendi a dinâmica de nossa relação: entre sumiços e retornos, sempre que nos encontrarmos, tudo sempre vai voltar ao mesmo lugar que parou. E nem quero que seja diferente.

  1. Sou testemunha de que Carlos combina a camisa, o cinto e o tênia Adidas desde 1781.

    • Michele
    • setembro 7th, 2010 6:20pm

    Quase chorei aqui… nem to num ambiente q posso chorar agora tah? Olha o q vc faz comigo… que historia eh essa de sapatos hein? Nem sabia disso! Se soubesse ia pensar mais no q calcar quando fosse te encontrar. Vc lembrou do sapato q eu tava usando quando te encontrei de novo? Aaaah. Agora vai ter q lembrar!

    Adooorei a sua historia sobre a gente. Vc eh o mais fofo… Esses dias nao sei pq lembrei daquela livraria q vc me levou… fiquei com saudades.

    Vamos nos encontrar no skype e conversar…

    beijo beijo beijo

    Miotto (hahaha nunca assino meu assim… eh soh pra vc)

    beijo de novo.

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