Belas despedidas
Já li que a data é 1943 mas o letreiro na fachada é claro: desde 1952. Certo é que só fui dar conta de sua existência em 1995, quando comecei a bater cartão (no sentido literal) na Casas Pernambucanas. Muitas vezes na hora do almoço, aproveitando a sombra da marquise devidamente adornada pelos painéis pintados pelo espanhol José Robles, dividi com mendigos os degraus de mármore da sua entrada para uma rápida pestana.
Mesmo trabalhando ali do lado durante quase 5 anos, filme mesmo só fui assistir em 1998. Qual exatamente eu não me lembro, mas Corra Lola, Corra – acompanhado de Luciana – foi um dos primeiros. De lá para cá Franka Potente ficou loira e estreou outros filmes, fui demitido da Pernambucanas e com Luciana perdi contato. Mas o Belas Artes continuou comigo.
Quem frequenta sabe que a estrutura do cinema não tem nada de especial e, antes das reformas que rolaram em meados dos 2000, ele ficava devendo muito no quesito conforto. Mas a principal característica de lá, mesmo após as mudanças administrativas, foi, depois do advento dos cinemaques e multiplexes, tornar-se junto do Espaço Unibanco o baluarte dos apreciadores de filmes iranianos, seja lá onde tivessem sido feitos. E eu era um deles.
Foram dezenas de películas boas e ruins (sério que alguém gosta de Medos Privados em Lugares Públicos?), muitas companhias diferentes além de várias horas acumuladas vendo a vida passar na Consolação pela sacada envidraçada do andar de cima. Eu gosto de verdade do Belas Artes e é por isso que no início deste ano, recebi com tristeza e resignação da home do UOL a notícia de seu fechamento.
Que se foda o patrimônio cultural de São Paulo, o Belas Artes faz parte da minha vida e, sendo um menino bem mimado, pergunto: como vão tirar isso de mim? A verdae é que não importa meu beicinho emburrado e nem os gritos da horda de indignados que armaram protestos, o proprietário do imóvel quer mesmo seu patrimônio de volta e nem eu, André Sturm (dono do Cine Belas Artes) ou a “população indignada” podemos fazer nada a respeito.
É muito fácil alegar que estão fazendo uma sacanagem com a cidade, mas ninguém estaria disposto a ganhar menos dinheiro com um terreno próprio unicamente para preservar aquelas 6 salas. Se o proprietário acha que pode lucrar mais com seu imóvel, por mais que seja triste para os órfãos do cinema, é uma decisão que deve ser respeitada, afinal ele não é responsável pela preservação do patrimônio histórico e cultural de São Paulo. Mesmo porque o Cine Belas Artes não é uma fundação sem fins lucrativos, portanto todos tem seus interesses próprios envolvidos.
Se a prefeitura quer mesmo tombar o Belas Artes, que seja feito o correto então: compre o terreno com dinheiro público e dê a concessão para que André Sturm administre o local como um cinema. Mas seria justo com a população em geral gastar tanto em uma empreitada desse porte numa cidade com problemas estruturais muito mais urgentes? Pois é, complicado.
Por isso o sentimento é de resignação. Um lugar que faz parte da minha história, assim como já aconteceu com tantos outros, vai deixar de existir e, por mais que isso me entristeça, nada posso fazer para impedir. Só gostaria que esse tipo de coisa acontecesse com menor frequência, ainda eu saiba que é inevitável. É um dos preços que se paga por envelhecer.
Adeus Belas Artes.
Agradecimento especial ao Valtinho Fragoso que me ajudou a descobrir o nome de José Robles
Foto: Tânia Carlos






















Lendo você falar isso me dá uma nostalgia muito grande desse e de outros programinhas em São Paulo.
Me mudei recentemente para Mordor (Triângulo Mineiro ¬¬) por conta de trabalho e por estar um tantinho saturada da qualidade de vida aí.
Infelizmente acabei fazendo isso e sinto uma saudade enorme desse ponto favorável de SP que a vida cultural e até mesmo cultural-gastronômica e das pessoas pensandes com quem tive o prazer de conviver.
Engraçado que conhecia muita gente nascida na Capital não fazia a mais vaga idéia da existência desse cinema, passavam na Consolação tomados por outros pensamentos e mal o percebiam. Engraçado que eu nem nasci na capital, morei aí 5 anos e já tinha fuçado milhões de programinhas, botecos e etc que a maioria nem imaginava existir, ou conhecia (como o Mercadão) e nunca tinha visitado.
Estive aí dia 10 e passei em frente sem saber que estava ficando órfã do Belas Artes. Uma pena, mas concordo com você em questão das prioridades.
Caco, olá. Ótimo teu texto. Dê uma olhada no vídeo-clipe que fizemos em homenagem ao Belas Artes:
http://www.trupechadeboldo.com
Um abraço!
Binho
Muito bom! e aquela (eterna e infinita!) tua: só curto pq não tem a opção LAMENTAR.