Lições
Se há uma coisa que sempre se pode tirar de relacionamentos que deram errado, são lições. Vítima ou vilão — não importa em qual categoria você se encaixe melhor — você sempre pode aprender algo com um final conturbado de relacionamento.
Isto posto, posso dizer que, em 2008, aprendi as mais duras e valorosas lições sobre como escolher, cativar, se relacionar e cuidar da próxima pretendente a dona deste bobo que bate no lado esquerdo do meu peito.
Seguindo o que achei ter aprendido, não me afobei e, ao sabor do acaso, conheci uma garota simplesmente encantadora. Bom gosto cultural, linda, inteligente e, veja só, solteira. Mas, por incrível que pareça, o maior motivo que me levou a me aproximar dela com intenções maiores do que uma simples ficada, foi o fato dela também não estar procurando ninguém. Essa foi uma das lições que tive com meus relacionamentos anteriores: a carência pode enganar nossos sentimentos e, uma coisa que parecia forte, some igual baforada em vidro.
Uma vez escolhida, sabia que não poderia demorar muito para beijá-la. Ela queria fazer amigos e eu não estava interessado nesse cargo. Eu só queria pegar ela pela nuca e beijar sua boca. E, novamente, tudo ocorreu perfeitamente. Em um descompromissado pós-balada, estávamos nos beijando como se não houvesse amanhã.
Ter ela mais próxima, emocionalmente falando, parecia um desafio maior. Tínhamos a tal química física, mas eu ainda era só um peguete. Tive que ter paciência, ouvir alguns nãos e tantos outros sins. Mas, devagarinho, ouvi dela um “eu te amo” espontâneo. A pequena estava conquistada? Parecia que sim, afinal, eu e ela vivemos um mês de namoro que, para mim, excedia o perfeito. E essa felicidade, acima de tudo, era concreta. Eu tinha junto de mim alguém que preenchia critérios lógicos e emocionais. Não havia ciúme, brigas, insegurança ou uma história conturbada no início. Ela gostava de mim porque eu era legal, e não por escutar suas lamentações. Fazia sentido gostar dela e quando conversávamos, sentia sem medo de errar que ela vivia os mesmos sentimentos que eu, com a mesma intensidade.
Numa segunda-feira a tarde, eu disse a um amigo pelo MSN, “Cara, nunca fiz as coisas tão certas num tempo tão certo. Por isso tenho certeza que agora vai. E se não for, o que duvido que aconteça, só tento novamente depois dos 35”. Porque fui dizer isso?
Na mesma segunda-feira, eu e ela nos encontramos para ir ao cinema. Tudo ok, filme assistido, beijos demorados, olhares cúmplices, conversas existenciais, risadas espontâneas. Uma noite perfeita, interrompida por uma frase de seis palavras que, ao ouvir, meu coração já soube que ali tudo mudaria. Ela me disse “Viu? Preciso te falar uma coisa…” .
Resumindo, mas resumindo muito, levei um pé na bunda. No dia, o pretexto foi uma inesperada viagem à Espanha que aconteceria dali a seis meses. O passar das semanas provou que era só uma desculpa, uma vez que em todas as discussões que se seguiram, a tal viagem nunca mais foi citada. O motivo oficial desde então, esse sim muito mais crível, foi que de um dia para o outro, o amor acabou. Igual a uma chavezinha de liga e desliga, onde você escolhe gostar ou não daquela pessoa. Ela racionalizou, decidiu que era momento de ficar sozinha, foi lá e, click! “Não o amo mais!”
Ainda nos falamos, mas tudo indica que vou morrer sem saber as motivações reais dela. Contando a história assim, resumidamente, os fatos conferem à garota toques de frieza e maldade que não existiram na verdade. Ela sempre foi muito atenciosa e procurou me explicar tudo de forma bastante paciente e racional. Mas isso por si só carrega um problema. Amar não é racional e, por mais que se mantenha um nível saudável de razão num relacionamento, ainda não se deixa de gostar de um dia para o outro. Se isso não acontece nem quando a pessoa amada pisa feio na bola, porque aconteceria quando tudo parecia perfeito?
Não vou entrar no mérito se outro cara atravessou nosso caminho, ela descobriu um defeito imperdoável em mim ou simplesmente que ela nunca esteve realmente apaixonada. Não importa mais. Decidi que dessa relação só quero as lições. E, de cara, posso dizer que aprendi duas:
A primeira é que nem tudo que parece perfeito, realmente está. É preciso muito mais atenção antes de achar que encontrou a pessoa certa. A segunda é que, definitivamente, não tenho uma chave de liga e desliga no coração. E na real? Nem quero ter. Prefiro essa vela que pode até demorar a apagar, mas, pelo menos, funciona perfeitamente enquanto outros corações vivem entrando em pane.


Nunca tive a ilusão de ser perfeito. Tive a ilusão de ser humano. Bobinha, eu.