Música

Morcheeba - Big CalmTodo jovenzinho ou jovenzinha, não importando sua idade real, em alguma fase já tentou se afirmar usando a música como instrumento de auto-rotulagem. Eu mesmo, lá com meus 14 ou 15 anos, queria provar que Engenheiros era melhor que Legião e que só por que ouvia Green Day e Offspring, era adepto do movimento punk-rock. O bom de ser jovem é que você tem uma espécie de licença para ser imbecil e pode, assim como eu, contar essas coisas como anedota alguns anos depois.

Mas já com uns 17 anos comecei de fato a formar meu apurado, seleto, incrível e incompreendido gosto musical que carrego até hoje e não vejo sinais de muda-lo tão cedo. E não foi por acaso que isso aconteceu, fui fortemente influenciado por um cara que não canso de dizer, mesmo que quase nunca ele possa ouvir pessoalmente, que foi o responsável por formar meu gosto musical, o Marcelo.

No final dos anos 90, a música eletrônica estava pegando forte. Enquanto Prodigy, Chemical Brothers e Fatboy Slim bombavam com um tal de big beat, bandas convencionais como U2 e Barão Vermelho tentavam dar um ar moderninho aos seus novos álbuns usando influencias não acústicas. Mais no início da década e depois paralelamente a essa cena, um outro estilo muito menos comercial nascido na Inglaterra, ganhava um punhado de adeptos por trazer batidas eletrônicas lentas, letras melancólicas e uma sonoridade bastante inovadora e própria. Algum crítico batizou de trip hop e desde então o estilo perdura na mesma pegada que nasceu, com poucos e fiéis admiradores. Um deles sou eu.

E só quem gosta sabe quanto é difícil ouvir trip hop no Brasil. Primeiro porque ninguém sabe o que é isso, quando muito a pessoa conhece Massive Attack e Portishead, mas só de nome. Outra é que as bandas nunca vem tocar ou mesmo tem seus álbuns lançados por aqui. Então depois de um tempo cansei de tentar explicar. Se a pessoa não demonstra ter sabores musicais mais elevados, limito-me a dizer que curto umas bandas estranhas de lugares distantes. Normalmente essa explicação basta.

Voltando aos meus 18 anos, lembro de Marcelo me falar de um punhado de bandas que foram me levando a outras e mais outras e, comprando alguns CDs (numa época que ainda se comprava CDs) e baixando muita coisa pelo Napster via dial-up, comecei a montar minha atual playlist que desde então vem sendo apenas acrescida e refinada.

Na época, o Moloko com sua Fun For Me bombou graças a propaganda do Lucky Strike. O Massive Attack lançou o Mezzanine, considerado por muitos, incluindo eu, o melhor álbum do banda. Depois do lançamento de seu álbum homônimo, o Portishead gravou o fantástico Roseland NYC com uma versão ao vivo de Roads que é do cu cair da bunda. Já o Morcheeba alcançou o reconhecimento em seu segundo álbum, o Big Calm e demorou um bocado pra eles conseguirem lançar um CD tão bom quanto ele. E tinha também o Moby, que apesar de não ser tão do estilo, tinha uma pegada eletrônica bem bacana. Em resumo, o final dos anos 90 foi uma época ótima pra se conhecer o trip hop e, graças ao Marcelo, eu tive essa chance.

Alguns anos depois quando conheci Tarcila, pude enriquecer ainda mais minha biblioteca. Foi ela que me apresentou Tricky, Sneaker Pimps e Smoke City, além da sua própria banda, o Belleatec. Daí pra frente, com uma conexão rápida e um HD decente, não parei de baixar e conhecer bandas novas de todos os lugares do mundo como Airlock, Lunascape e Hooverphonic da Bélgica, Khoiba da República Tcheca, Mudville e Puracane dos EUA, Everybody Loves Irene da Indonésia e Flunk da Noruega.

Apesar de também ouvir tantos outros estilos musicais, foi no trip-hop que achei letras, vocais e batidas que acompanhavam meu humor bastante instável. Associo muitas músicas à pessoas ou mesmo fases importantes da minha vida. Ok, sei que todo mundo faz isso, até quem gosta da Lady Gaga, mas o trip hop combina comigo e, ainda que não seja um fenômeno cultural mesmo nos meios alternativos, continuo amando incondicionalmente o estilo.

Fato é que nem sei se o gosto musical de Marcelo hoje em dia é igual ao meu. Pra mim pouco importa. No coração guardo o trip hop que ele me apresentou. Numa prateleira, guardo um CD que ele meu deu de aniversário.

  1. po cara, engraçado esse texto. Eu poderia escrever ele do mesmo jeito. Só que em vez de trip hop eu falaria punk rock. E em vez de Marcelo eu citaria um amigo meu que me emprestou o CD Punk-o-Rama vol.II e depois vários outros

    • Iuri
    • fevereiro 23rd, 2010 5:23pm

    Acho fino conhecer trip hop nos anos 90, eu não tive essa oportunidade além do que a mtv me proporcionava, realmente era a era de ouro.

    • Michele
    • março 1st, 2010 4:44pm

    Adorei Caco! “O bom de ser jovem é que você tem uma espécie de licença para ser imbecil e pode” Muito bom, boa lembranca, eu usava camiseta de folha de maconha e nem fumava.

    Sobre o trip hop, realmente nao eh facil de achar quem ame tanto esse estilo se vc nao estah no meio, imagino q aih no brasil seja masi dificil ainda.
    beijos

    • RONIE
    • março 2nd, 2010 6:30pm

    Eu nunca ligue para o tipo de som que estava na moda ou para as tendências. Desde novo, sempre fui adepto do Metal.

  2. Eis um texto sobre gostos musicais que me identifiquei da primeira à última linha!! É até emocionante conhecer alguém que goste tanto de trip hop assim. Eu passei por todas essas fases inclusive do green day na adolescencia… Tudo isso foi aparecendo na minha música, como baixista/baterista que fui(frustrada tentativa de “continuar sendo”)… chegou uma hora que eu cansei de tudo e queria tocar o que gostava de ouvir. Até então, estou sem banda à muitos anos… Tocar trip hop no Brasil é ainda mais difícil que ouvir.. P/ ouvir, haja sorte p/ download e mensalidades do last fm. ;)

  3. Olá Caco!

    Cara, estava procurando melhor sobre o movimento Trip-Hop e o teu artigo é bem legal, aprendi um pouco mais sobre esse estilo de música ‘renegado’ que tanto amo.

    Já ouvia essa bandas que tu citou – Portishead, Dido, Moby Sneakers pimps, etc… mas foi apenas com o Hooverphonic que entendi que essa é a música que pretendo tocar com minha banda que estou montando – e aceito apoio e sugestões de músicos caso tu conheça, hehehe.

    Se já é difícil encontrar fãs desse estilo no Brasil, que dirá ser cantora trip-hop no país do Samba, Pagode e Funk! Cruzes!!!

    Besitos e inté, parabéns pela matéria e pelo bom-gosto – na minha opinião

    • março 30th, 2010 9:00am

    Fala qual é o seu last.fm agora. Não é todo dia que a gente encontra alguém que conhece Puracane e Flunk.

  4. finalmente algum referência a lunascape em site brasileiro. conheço trip-hop desde os noventa, ouvia portishead e massvie attack, e depois o restante da trupe.

  5. e claro: crustation! muito bom.

  6. If I had a nickel for each time I came to http://www.ardil.com.br.. Incredible article.

  7. Caramba estou feliz e surpreso de achar um artigo tão grande falando sobre trip-hop aqui no Brasil.

    Você poderia indicar algumas bandas nacionais do gênero, se é que existem?

    Um abs e parabéns pelo site!

    • Jorge
    • fevereiro 12th, 2011 5:14pm

    Eu acho o trip-hop bem popular sim! Não no Brasil, claro!

  1. fevereiro 10th, 2011