Ensaio sobre o desapego

Até para o que não é bom é preciso ter dom. Para o cara que a vida toda foi certinho, é difícil virar um canalha do dia pra noite. Mesmo aquela garota linda, atraente, mas comportada, tem sérias dificuldades pra sair na balada pegando geral. Mentir, dissimular, ser apático e tantos desvios comportamentais, certamente são dons inatos que podem ou não ser exercitados no decorrer da vida.

A introdução serve pra falar de uma coisa que há tempos vem me incomodando, o desapego da geração anos 90. Talvez seja a falta de surra ou o excesso de psicologia infantil, mas o fato é que temos uma garotada entrando na vida adulta com um dom incrível de se não comprometer com absolutamente nada, seja um relacionamento, uma amizade ou uma simples promessa.

Atrás de lindos discursos sobre melhores amizades e abraços pseudo significativos, o que existe na verdade é um umbigocentrismo escroto que pode ser exemplificado por uma coisa que uma garota de 23 me disse certa vez (e me desculpe, garota, se você estiver lendo, mas é verdade), “Eu sou a pessoa mais preparada pro amor que conheço”. Como diria Boris Casoy, como alguém no alto dos seus 23 anos tem a pachorra de se considerar, de coração aberto, a “mais preparada” para o amor? Quem é preparado pro amor nessa vida? O que é ser preparado pro amor? A cabrocha, na ocasião, ainda ficou ofendida quando desdenhei da sua afirmação. Fato é que qualquer atitude dela depois disso só provou que eu estava certo. Aliás, já citei que eu sempre tenho razão?

Existe uma tênue linha que separa a imparcialidade da falta de lealdade e considero isso um dos outros graves problemas que assolam essa juventude. Nem quando eu tinha 20 anos de idade, acredite, dei as costas pra alguém que me ajudou, muito menos por um amigo de balada ou mesmo uma peguete qualquer. Amigo é patrimônio, lealdade é o alicerce e reciprocidade é a manutenção. Sem essa tríada, não rola.

Outro pecado que me incomoda é o da omissão. Uma vez que se cansou da coisa, para que ir lá dar uma explicação, uma satisfação ou sei lá o quê? Muito mais simples sumir, se omitir, dizer que não é nada. Mais do que falta de consideração, isso mostra uma certa preguiça mental, afinal é muito mais simples não dizer nada do que parar pra pensar o porquê de tudo ter acabado. Ou pior, a pessoa se dá ao trabalho de inventar uma mirabolante história, quando a verdade simples seria tão mais fácil pra todos.

Citei três exemplos de coisas que além de ter vivido, sei de amigos com histórias parecidas. Em nome do desapego e de relações leves e sem rótulos, valores importantes viraram commodity para discursos pré-fabricados. E isso não é simplesmente imaturidade, é resultado de uma criação com valores omissos, falta de exemplos, tudo regado a muito leite com pêra e sucrilhos vitaminados.

Não vou mentir que escrevi esse texto preocupado com meus vindouros descendentes ou mesmo com o futuro do Brasil. Minha motivação maior é que não acompanhei o ritmo de meus amigos da mesma geração e acabei tendo de me relacionar com pessoas as vezes 10 anos mais jovens que eu. E mesmo que tenha uma boa surpresa aqui outra acolá, no geral tenho ficado cada vez mais decepcionado com o que encontro. Não sei ao certo qual a solução, mas ainda que essa não seja minha natureza e eu não tenha o dom como citei no primeiro parágrafo, talvez eu deva me tornar um ser desapegado também. Gente velha ainda consegue aprender?

  1. Infelizmente faço parte dessa maldita geração. E também sofro com todo esse desprendimento das coisas. Enquanto “pirralha”, só tenho um pedido a fazer: Por favor, não se torne um desapegado! Não combina contigo ;)

    Beijos, fica bem =)

    • Sisa
    • March 3rd, 2010 11:51pm

    É. Falei com o cidadão em questão que não tou acostumada a ser descartada. Dispensada sim. Descartada? No mínimo deselegante. Gosto de gente que sabe a que veio e diz o que sente. Sou destas. Beijo e obrigada pelo comentário =)

    • ap
    • March 4th, 2010 11:41am

    “Esta juventude de hoje está muito mudada” Bruce Wayne.

    • @Shepones
    • March 4th, 2010 11:46am

    Muito bem observado! (Sai do muro, galera…). Mas ainda aguardo seu texto sobre o fio-terra masculino como tendência.

    • flor
    • March 4th, 2010 3:08pm

    tu tinha que desapegar dessa gente, e só
    a amizade real ainda é um valor a ser cultivado

    a triada(?) é lei

    • flor
    • March 4th, 2010 11:52pm

    .o problema é a falta de Gosttase nessa juventude.

  2. flor :
    .o problema é a falta de Gosttase nessa juventude.

    É uma iguaria que só paladares aguçados pelos sabores e dissabores da vida podem apreciar.

    • flor
    • March 5th, 2010 12:27am

    POisé, @O Dono dessa porra, essa juventude que cresce com sucrilhos chocolate e sem Gosttase é fogo!

    • Junior
    • March 22nd, 2010 9:22pm

    Bem interessante.

    Será que essas pessoas que desviam da norma padrão são estigmatizadas de alguma forma pela sociedade? Ou será que ser “desviante” já se tornou a norma?
    Será que daria uma análise sócio-antropológica legal? rs

    Abraços.

  3. Esse título ficou foda. Sério.

    • Aline
    • May 22nd, 2010 9:35am

    Não sei quantos anos tens, mas não aprenda esse tipo de coisa, vai por mim.

  4. Foda, umbigocentrismo escroto é o que domina mesmo. Ótimo texto, bom conhecer o blog.

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