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	<description>Errado por natureza</description>
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		<title>As intermitências de Miotto</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Sep 2010 19:50:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caco</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Possuo uma antiga obsessão por calçados a ponto de julgar diversos aspectos sócio-culturais de uma pessoa, apenas pelo que ela está calçando. Por isso, a primeira coisa que me lembro sobre a Miotto é de ela usava um scarpin jeans e que ela me pareceu uma menininha bem da genérica. Isso foi em 2002 e, ainda que eu continue julgando as pessoas pelos calçados com o mesmo vigor, aprendi que às vezes é melhor dar mais uma chance.</p>
<p>Miotto trabalhava na mesma empresa que eu. Tínhamos um grupo de colegas de trabalho em comum, mas nada que caracterizasse de fato uma amizade. E na real, ambos não víamos motivos para isso. Miotto era mais uma jovenzinha recém chegada de Minas Gerais para estudar publicidade em SP. Eu, um nerd não assumido encantando com a recém descoberta vida regada aos excessos do álcool.</p>
<p>Belo dia, sei lá porque, descobri nosso gosto em comum por cinema – alternativo ou não – que nos aproximou, mas também pouco mudou nossa relação enquanto trabalhamos juntos. Até que Miotto saiu da editora e, dali pra frente, firmou-se uma gostosa amizade que rendeu dezenas de sessões de cinema pelas salas da av. Paulista.</p>
<p>Às vezes ela desaparecia. Não atendia o celular, entrava em algum IM, não dava sinal de vida e sumia da minha vida. Então, do nada, me ligava chamando pra sair e tudo voltava exatamente do lugar onde parou, como se nada tivesse acontecido. Vimos alguns filmes ótimos e outros tantos ruins, mas na real não importava a qualidade da película, todo encontro era bom do modo que era e funcionou muito bem até o dia que Miotto resolveu largar tudo e tentar a vida na América. <em><a href="http://cinema.terra.com.br/ficha/0,,TIC-OI4864-MNfilmes,00.html" target="_blank">Minha mãe gosta de mulheres</a></em> foi o último filme que vimos antes dela viajar.</p>
<p>Aí tudo mudou. Noutro continente, os sumiços dela tornaram-se tão frequentes e duradouros que a amizade praticamente virou história. Não sei quanto ela, mas eu senti muita falta. Tanto que durante um bom tempo, Miotto ainda ostentou o título de pessoa que mais foi ao cinema comigo, perdendo apenas para posteriores namoradas. Depois de um bom tempo ainda voltamos a nos falar e nossa amizade até melhorou. Ainda que raras, tínhamos conversas bem mais bacanas das que as quando ela mudou de país.</p>
<p>Cinco anos depois de pegar avião para a terra da liberdade, Miotto me disse que finalmente viria para o Brasil fazer uma visita. Não especificou a data, de forma que, ao seu velho estilo, do nada apareceu e me chamou pra ir ao cinema. Quando fui encontra-la, ela calçava uma elegante bota cano longo marrom e o mesmo sorriso discreto de sempre. O retorno foi celebrado com uma sessão do filme <em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Imaginarium_of_Doctor_Parnassus" target="_blank">O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus</a></em>.</p>
<p>Miotto foi o sapato que mais errei na vida. Sua rápida visita ao Brasil, me fez lembrar todos os motivos pelos quais eu sempre gostei dela. Logo que chegou na América ela falou comigo e depois sumiu de novo. Daí entendi a dinâmica de nossa relação: entre sumiços e retornos, sempre que nos encontrarmos, tudo sempre vai voltar ao mesmo lugar que parou. E nem quero que seja diferente. <img class="aligncenter size-full wp-image-197" title="ingressos" src="http://www.ardil.com.br/wp-content/uploads/2010/09/ingressos.png" alt="" width="500" height="265" /></p>
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		<title>Pegadinha do Mallandro</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Aug 2010 21:09:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caco</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Era fevereiro de 2009 e a festa da carne rolava solta. Em vez de curtir como folião e encher a cara, tive a infeliz ideia de convidar uma nativa de Osasco para ir ao cinema. A cabrocha tinha lá seus 27 anos e só havia visto três filmes na telona em sua vida. Começou com ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Era fevereiro de 2009 e a festa da carne rolava solta. Em vez de curtir como folião e encher a cara, tive a infeliz ideia de convidar uma nativa de Osasco para ir ao cinema. A cabrocha tinha lá seus 27 anos e só havia visto três filmes na telona em sua vida. Começou com <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=YNEQa2N5q-s" target="_blank">Super Xuxa contra o baixo astral</a></em>, passando por <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=CRqBHyBuGKs" target="_blank">Onze homens e um segredo</a></em> e finalizou com estilo vendo <em><a href="http://www.youtube.com/watch?v=lKN6kXKsuG0" target="_self">10.000 AC</a></em>. Aí errei na mão e a levei para assistir <em><a title="O Lutador" href="http://www.youtube.com/watch?v=SL-LhYTKF0Q" target="_blank">O lutador</a></em>, de Darren Aronofsky.</p>
<p>Os olhos dela carregavam uma mistura me medo e fascinação. Foi uma surpresa p’rela saber que a rua Augusta tinha cinema, bares e um monte de emos feios no lugar das prostitutas que antes transitavam na região. Mesmo assim ela estava com medo de ir a pé da av. Paulista até Espaço Unibanco na rua Augusta, mas acalmei a cabocla explicando que circulo na região há anos e que não havia perigo de andar por ali.</p>
<p>Como previsto, a osasquense não entendeu porra nenhuma do filme. Ficou achando que saímos de uma sessão de cinema-porrada no estilo <a href="http://www.youtube.com/watch?v=nQko717B5y0" target="_blank">Jean Claude Van Damme</a>. Para poder aguentar uma mina limitada assim, convidei-a para beber num dos botecos próximos. Aquele chato medo de circular pela região persistia na garota, mesmo que eu insistisse que a região era segura.</p>
<p>Cervejas depois, saímos ébrios do bar rumo ao carro dela, estacionado na al. Santos.  Novamente a questão sobre a segurança de se andar na região foi levantada. De saco cheio, insisti que não havia perigo algum. Mas o medo atrai coisa ruim. Ao nos aproximarmos do veículo dela, contrariando tudo que falei, um casal de galerosos nos abordou truculentamente dando voz de assalto.</p>
<p>O meliante falava alto, rápido, grosso e me chamava de playboy filho da puta e de todos os outros clichês que a criminalidade usa. Só faltava uma coisa para fechar a equação para um assalto comum: uma arma. Foi aí que descobri o poder da indústria farmacêutica e suas incríveis cápsulas da calma e da felicidade induzidas. Com a serenidade de um monge tibetano, questionei o margina, “Viu, mas onde está sua arma?”.</p>
<p>A osasquense ao meu lado tremia em silêncio. A mina do mano nada fazia. Eu aguardava uma resposta para dar procedimento ao ritual do assalto. O meliante, um pouco hesitante, respondeu que a arma estava escondida atrás dele. Pedi então que mostrasse. Ele respondeu que se sacasse a arma, seria pra me matar. Respondi gentilmente que preferia levar um tiro a ser assaltado na base do grito.</p>
<p>Poucos e intermináveis segundos seguiram enquanto ele colocava a mão atrás da camisa para pegar algo. Pela primeira vez desde a abordagem me senti preocupado, mas achava que mesmo que brotasse uma arma dali, eu só teria que entregar a carteira e ir para casa com o orgulho ferido e uma osasquense em choque. No entanto, a rápida volta da mão do assaltante trouxe outra surpresa.</p>
<p>Com um sorriso no rosto e uma atitude fanfarrona, o ordinário do margina, fazendo uma arma de mentira com os dedos, disse para mim, “Rá! Eu não tenho arma!”, e saiu andando com sua amásia, como se aquilo tivesse sido uma pegadinha do <a href="http://download3.globo.com/esporte/Info/Malandro.html" target="_blank">Sérgio Mallandro</a>. Ainda que a vontade fosse espancar o imbecil, não quis abusar da sorte. A osasquense estava atônita e trêmula, sem reação nem pra chorar. Seguindo o climão descontraído do momento, perguntei para ela, “E aí, vam’bora?”.</p>
<p>O margina ainda foi perseguido por um grupo de taxistas que estava próximo e apanhou feito boneco de Judas em sábado de aleluia. A osasquense, mais tarde, disse que aquela havia sido a noite mais emocionante da vida dela. E eu aprendi que as vezes é melhor ficar em casa jogando videogame do que sair com uma mina só pra dizer que tive um encontro. Tinha tudo pra dar errado e deu.<br />
<img class="aligncenter size-full wp-image-192" title="Pistolão" src="http://www.ardil.com.br/wp-content/uploads/2010/08/IMG_3100.jpg" alt="Pistolão" width="500" height="375" /><small>Foto: <a href="http://twitter.com/suco_de_laranja" target="_blank">Paula Ragucci</a></small></p>
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		<title>O metrô e a simplicidade perdida</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Jul 2010 00:12:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caco</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A simplicidade da lógica infantil é encantadora. Quando criança eu achava que o maior salário do Brasil era o do presidente da república. Uma ideia tão racional quanto inocente. Também achava que o metrô de São Paulo, com duas linhas que ainda se chamavam Norte-Sul (azul) e Leste-Oeste (laranja), tinha uma composição perfeita, atendendo todas ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A simplicidade da lógica infantil é encantadora. Quando criança eu achava que o maior salário do Brasil era o do presidente da república. Uma ideia tão racional quanto inocente. Também achava que o metrô de São Paulo, com duas linhas que ainda se chamavam Norte-Sul (azul) e Leste-Oeste (laranja), tinha uma composição perfeita, atendendo todas as regiões de uma cidade cujo tamanho real eu ainda não fazia ideia qual fosse. Perto de casa havia uma estação com o nome do meu amado time e, no meio disso tudo, a faraônica estação Sé, uma incrível babel onde todas as pessoas se cruzavam, quaisquer que fossem seus destinos.</p>
<p>Quando eu via as linhas do metrô cortando um mapa da cidade, achava que aquilo tinha uma lógica perfeita, de forma que novas linhas eram completamente desnecessárias. Se o metrô tivesse que crescer, que fosse em suas extremidades com novas estações nas duas linhas já existentes. E por incrível que pareça, durante muitos anos essa lógica simplista e infantil realmente foi usada nas expansões do metrô.</p>
<p>Em 1995 quando comecei a trabalhar, a linha 2 Verde já havia sido inaugurada e me deixava praticamente na porta do trabalho. Ainda que fosse uma mão na roda para mim e fizesse todo sentido ela existir, por algum desconhecido motivo estúpido, ela me parecia apenas um apêndice da linha 1 Azul (antiga Norte-Sul), uma coisa torta que brotou sem querer ali no Paraíso e cresceu pros lados da Av. Paulista. Todo esse meu incômodo sumiu em 2001 quando saí da inóspita Z/L e mudei para próximo do metrô Vila Madalena. Se fui pobre, procuro esquecer.</p>
<p>Os anos passaram e o metrô sofreu de inanição, crescendo bem menos do que deveria. A linha Lilás que liga o nada a lugar nenhum foi inaugurada, algumas novas estações aumentaram as linhas Azul e Verde, um “super plano” de expansão foi anunciado e recentemente uma tal de linha 4 Amarela deu o ar da graça, acabando de vez com o pouco da simplicidade romântica que teimava em existir no meu coração. Isso porque o metrô (o trem) da linha Amarela não é administrado pelo Metrô (Companhia do Metropolitano de São Paulo), e sim pela ViaQuatro, um consórcio formado por empresas privadas.</p>
<p>Não vou discutir se esse tipo de iniciativa é boa ou ruim, mas acho que tal divisão deveria ser invisível para o usuário. Se você perder sua carteira na linha Verde mas perceber apenas quando estiver na linha Amarela, o funcionário – que usa um uniforme diferente –  vai mandar você procurar alguém do metrô do Metrô, já que ele trabalho no metrô da ViaQuatro. Complicado? E a estação Paulista que fica na Rua da Consolação, enquanto a estação Consolação fica na Av. Paulista? Ainda que fisicamente estejam interligadas por esteiras rolantes iguais as do desenho dos Jetsons, não podem virar uma estação só porque são administradas por empresas diferentes.</p>
<p>Mais linhas, estações e concessões privadas virão e é indiscutível que isso será melhor pra cidade. O Corinthians não é mais o único time a ter uma estação com seu nome e as crianças ainda poderão criar suas próprias lógicas encantadoras para o metrô e tudo mais na vida. Só lamento que o mundo esteja ficando tão desnecessariamente complicado e as lógicas, bem menos simples.</p>
<p><img class="size-full wp-image-173" title="Metrô" src="http://www.ardil.com.br/wp-content/uploads/2010/07/image001-1.png" alt="Metrô" width="500" height="360" /><small>Muito amor para a ilustração que a <a href="http://bit.ly/as7nNK" target="_blank">Angélica Belmonte</a> fez especialmente para este texto. &lt;3</small></p>
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		<title>Ronald</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 03:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caco</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Os clichês só são clichês porque têm seu valor. E ainda que não fossem os clichês mais meigos da cultura brasileira, Ronald carregava vários na ponta de língua. Frases como “somente o bom se perpetua” ou “um dia você vai dar razão pra mim” eram lugar comum em qualquer discussão com ele. Ronald adorava discutir, ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os clichês só são clichês porque têm seu valor. E ainda que não fossem os clichês mais meigos da cultura brasileira, Ronald carregava vários na ponta de língua. Frases como “somente o bom se perpetua” ou “um dia você vai dar razão pra mim” eram lugar comum em qualquer discussão com ele. Ronald adorava discutir, tanto que até hoje não ficou claro se ele acreditava mesmo em algumas coisas que defendia ou se fazia isso apenas pelo prazer da retórica.</p>
<p>No geral, a vida foi bastante difícil para Ronald. Uma infância muito pobre, uma mãe descompensada, um pai ausente que o introduziu ainda jovem no ofício de operário de fábricas de sapatos. Ronald passou a vida toda cheirando cola profissionalmente e nem por isso enlouqueceu. Tanto que se casou e, mesmo com o parco salário de operário, criou sem luxos seus três filhos de forma excepcional. Não que ele fosse o pai da família Doriana, mas pela trajetória de vida e exemplos que teve em sua formação, pode-se até pra dizer que Ronald, ao seu modo, era um doce.</p>
<p>Mas a verdade é que ele era um cara difícil de se lidar. Com opiniões duras e reacionárias, era quase impossível se encaixar no padrão de qualidade que Ronald esperava do mundo. Tudo e todos sempre mereciam algum comentário ácido, principalmente seus filhos, com quem Ronald mantinha uma relação bastante delicada. Ainda que hoje fiquem bem claros seus nobres fins, os meios às vezes eram bem tortuosos.</p>
<p>Ronald era um homem de prazeres simples. Estrada, praia, cerveja, caipirinha de vodka, consertar rádios e televisores velhos, fazer pequenas obras em casa, ouvir Clara Nunes e Orlando Silva e limpar os carburadores de suas Variants e Brasílias velhas. E num certo momento da vida ele alcançou uma a tranquilidade para desfruta-los. Com a família estruturada, seus filhos bem criados e independentes financeiramente e alguns pequenos luxos conquistados, ele pôde, enfim, permitir-se bons momentos com maior frequência.</p>
<p>Aí novamente a vida veio dificultar as coisas. Coração, rins e um monte de outras coisas não mais funcionavam direito naquele corpo. Em poucos anos, Ronald se viu totalmente privado de todos os poucos prazeres que tinha. Não podia beber, viajar ou mesmo uma caminhada mais longa. Restou-lhe os suspiros constantes e o arrastar de chinelos pela casa. Uma sombra do guerreiro que já tinha sido.</p>
<p>O que move qualquer pessoa é a busca pela manutenção dos seus prazeres. Quando quase todos eles deixam de existir, o corpo cansa de tanto viver. Na madrugada do dia 08 de junho de 2002, há exatos 8 anos, eu recebia do médico a notícia que Ronald havia morrido. Não era exatamente uma surpresa, há dias ele estava na UTI. Mas isso não minimizou o impacto da notícia da perda de um pai. Nem eu nem minha mãe choramos na hora, tampouco minhas irmãs que souberam por telefone logo depois.</p>
<p>Não que eu estivesse segurando as lágrimas antes, mas só no momento que soltei a alça do caixão e vi Ronald ser enterrado que eu desabei. Saí de perto, sentei no meio fio de uma das ruazinhas internas do cemitério e chorei por vários minutos. Depois pedi que meu amigo <a title="Rodrigo Disperati - Collecta" href="http://www.twitter.com/collecta" target="_blank">Rodrigo </a>me levasse embora porque não havia mais nada que eu quisesse ver ali. Foram aproximadamente 31km de um cúmplice e total silêncio até minha casa, naquele ensolarado e frio final de tarde.</p>
<p>Hoje, 8 anos depois, ainda penso muito em meu pai. Quando ele morreu não estávamos nos falando, mas não cairei no clichê de dizer que vou carregar essa culpa para sempre. Tínhamos a relação que a cabeça dura dele e a minha imaturidade permitiam, o que não significa que eu não sinta falta dele e admita que realmente ele tinha razão em muitos de seus clichês. Cada ano que passa, me vejo mais parecido com ele, o que por si só já é um tremendo clichê. Talvez por isso às vezes eu sonhe com nós dois conversando sobre as coisas que tenho feito da vida, sempre em um tom amigável. Outro dia mesmo sonhei que assistíamos Homem de Ferro 2 no cinema e ele até que gostou. Na realidade Ronald odiaria esse filme. Mas vai saber, talvez ele dissesse que gostou só pelo prazer da retórica. E é disso que sinto falta.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-152" title="Ronald" src="http://www.ardil.com.br/wp-content/uploads/2010/06/rony.jpg" alt="Ronald e Família" width="500" height="375" /><small>Foto das fotos: <a href="http://www.flickr.com/photos/marioav" target="_blank">Mario Amaya</a></small></p>
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		<title>A menina do telemarketing</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Jun 2010 04:58:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caco</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Todos os meses era a mesma coisa e eu gostava assim mesmo. Ela me ligar com a mesma rigorosa frequência, permitia premeditar minha reação no inútil ritual de conversar com a menina do telemerketing da operadora de cartão de crédito. Ok, nunca era a mesma pessoa e a menina poderia ser até um menino, mas ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todos os meses era a mesma coisa e eu gostava assim mesmo. Ela me ligar com a mesma rigorosa frequência, permitia premeditar minha reação no inútil ritual de conversar com a menina do telemerketing da operadora de cartão de crédito. Ok, nunca era a mesma pessoa e a menina poderia ser até um menino, mas na minha cabeça existia uma entidade chamada “menina do telemarketing” que poderia trabalhar em qualquer empresa e ter qualquer idade.</p>
<p>E, em todos os seus telefonemas, a menina do telemarketing insistia que eu precisava urgente ter um cartão de crédito. Eu já tinha meus 25 anos nunca havia nem cogitado ter um, simplesmente porque herdei toda a tosquice do meu pai. Aprendi a comprar as coisas à vista na base da ação e reação, gastou e ficou sem. Meu pai era operário numa fábrica de sapatos e criou três filhos com essa filosofia, impossível que ele estivesse tão errado assim.</p>
<p>Mas a persistência era uma das virtudes da menina do telemarketing e mensalmente ela me ligava pra defender sua bandeira &#8211; fosse ela Visa ou Master &#8211; com um empenho comissionado de fazer inveja a qualquer soldado islâmico em sua da jihad. Um dia ela me disse que eu estava perdendo na vida. Segundo ela, com o cartão de crédito daquela promoção, eu poderia parcelar minha compras e até usar exceder meu limite em até 7 dias sem juros ou algo do tipo, não lembro e não importa. Respondi que não parcelava nem o IPTU do meu apartamento e que não gostava de dever para burguês. Disse também que meu pastor da igreja ensinou que dinheiro de plástico era invenção do Diabo.</p>
<p>Ela não se comoveu com minha argumentação barata. Do alto de seu headphone babado, a menina do telemaketing afirmou, na maior cara de pau, que muito em breve todo cidadão brasileiro teria um cartão de crédito e que eu seria o único a ficar fora dessa gostosa brincadeira consumista. Empolgado com as réplicas e tréplicas daquela prosa, perguntei se era possível fazer um cartão de crédito sem certidão de nascimento ou RG, afinal, tá cheio de brasileiro que não faz parte nem das estatísticas. Como fazia tempo que havíamos saído do script, a garota do telemarketing permitiu-se abusar de toda sua franqueza e responder, “Nós aprovamos cartões com limites de 200 reais, Sr., qualquer um pode ter”. Limitei-me a dar uma risadinha sem graça e agradecer a oferta, recusando-a mais uma vez. Desliguei sem esperar uma resposta e, em ligações posteriores, nunca mais me dei ao trabalho de argumentar.</p>
<p>Alguns anos depois, por conta de uma viagem ao exterior, fui obrigado a fazer um cartão e fiquei esperando a menina do telemarketing me ligar. Como eu tinha uma certidão de nascimento, um RG e agora até um passaporte, fui agraciado com um cartão de crédito internacional com limite superior a 200 reais e até anuidade grátis para sempre. Mas foi um processo mecânico, frio e sem argumentação. Eu precisava do cartão e ela tinha um para me oferecer, monótono e simples assim. A partir daquele momento eu fazia parte da gostosa e irresponsável brincadeira consumista e não me sentia feliz com isso.</p>
<p>Ainda que nossa relação já estivesse abalada desde a discussão social de quem pode ou não ter um cartão, eu ainda carregava um certo orgulho esdrúxulo porque até então, sempre havia negado as ofertas para ter um cartão de crédito. Sucumbir ainda que por obrigação aos encantos da menina do telemarketing, fez com que ela morresse para mim. Tanto é verdade que depois disso ela nunca mais me ligou. Hoje, em algum lugar, é ela que sente prazer por saber que estava certa desde o início. Hora ou outra, todo brasileiro vai ter um cartão de crédito. E que Deus nos ajude quando esse dia chegar.</p>
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		<title>Uma carta sobre nada</title>
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		<pubDate>Fri, 28 May 2010 01:08:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caco</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Querido Jerry, Sem ainda ter ideia da importância que você viria a ter num período da minha vida, ouvi falar do seu show em 1998 por meio de uma colega de trabalho que te descreveu como uma pessoal maldosa e com piadas ótimas. Meus interesses na época eram outros e meu humor bem menos refinado ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Querido Jerry,</p>
<p>Sem ainda ter ideia da importância que você viria a ter num período da minha vida, ouvi falar do seu show em 1998 por meio de uma colega de trabalho que te descreveu como uma pessoal maldosa e com piadas ótimas. Meus interesses na época eram outros e meu humor bem menos refinado de forma que, mesmo ouvindo seu sobrenome tantas vezes nos anos seguintes, só fui assistir e apreciar seu trabalho 10 anos depois.</p>
<p>No final de 2008 fui apresentado à insônia e depois que você a conhece, dificilmente ela vai embora da sua vida. Era angustiante a experiência de deitar na cama e ficar rolando de um lado para o outro fritando nos próprios pensamentos. Óbvio que existiam soluções farmacológicas para resolver isso, mas até então eu não tinha orientação médica de como administra-las, portanto tinha que improvisar.</p>
<p>A única forma de pegar no sono era desligar o cérebro, deixa-lo vazio, sem nada. Por intermédio e insistência de uma amiga da pós-graduação que emprestou todos os DVDs da série, uma noite ao me deitar e tentar pegar no sono, assisti um episódio do seu show sem muita expectativa. Acabei vendo a primeira temporada inteira naquela madrugada.</p>
<p>Ainda que o conceito da “série sobre nada” ainda não estivesse alí naqueles primeiro episódios, vi um tremendo potencial nas nove temporadas que eu tinha em mãos. Aquilo limpava minha cabeça de forma que eu conseguia pegar no sono, bastando dois ou três episódios por noite. Desde então, atribuo créditos a você por ter me ajudado a dormir na pior fase da minha insônia e depressão.</p>
<p>Assisti todas as temporadas num período de pouco mais de dois meses e o mais curioso é que eu estava tão transtornado nesse período, que mal me lembro dos episódios. Salvo uma cena ou outra, não consigo conectar muitos fatos a série. Sei o que é o Festivus, como é estacionar no estilo Constanza e o que é ser mestre do próprio domínio, mas diante da quantidade de cenas memoráveis, isso é pouco. Pensando bem, me lembro bem do George, talvez porque minha auto-estima seja bem parecida com a dele.</p>
<p>A ironia desta carta é que tenho noção que se você realmente a lesse, certamente faria algum comentário maldoso e engraçado sobre minhas amigas, sobre mim, minha insônia e o país onde moro. Seria justo, graças a esse seu tipo de comportamento que pude conseguir dormir em várias noites. Pensando sobre nada.</p>
<p>Caco Ignatti<br />
<em> 27/05/2010</em></p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-141" title="seinfeld-tania-carlos" src="http://www.ardil.com.br/wp-content/uploads/2010/05/seinfeld-tania-carlos.jpg" alt="Jerry &amp; Geroge &amp; Elaine &amp; Cozmo" width="500" height="375" /><small>Foto: <a title="Tânia Carlos" href="http://www.taniacarlos.com" target="_blank">TC</a></small></p>
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		<title>Parabéns pra ninguém</title>
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		<pubDate>Thu, 20 May 2010 04:22:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caco</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não há inocência, não há respeito. Uma geração formada por crianças, não importando a idade real, como diria meu amigo Juliano Jubash, comemoram todos pimpões o halloween ou o San Patrick’s Day, mas quando chega na Sexta Feira Santa, correm comer um churrascão para exercer toda sua pseudo rebeldia e revolta para com a igreja ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não há inocência, não há respeito. Uma geração formada por crianças, não importando a idade real, como diria meu amigo <a href="http://julianojubash.tumblr.com/" target="_blank">Juliano Jubash</a>, comemoram todos pimpões o halloween ou o San Patrick’s Day, mas quando chega na Sexta Feira Santa, correm comer um churrascão para exercer toda sua pseudo rebeldia e revolta para com a igreja e as tradições. Não há parâmetros para absolutamente nada, nem pra comemorar uma data que egoisticamente falando, todo miserável ser deste mundo deveria ter respeito, o próprio aniversário.</p>
<p>Tudo bem que acontece todo ano e não chega a ser um evento inesperado, ainda que os mais alarmistas possam sempre pensar que seja sempre o último, mas porra, em tempos que Rivotril vende mais que analgésicos, todo mundo deveria, no mínimo, ter respeito com esse ano a mais sobrevivido. E como as pessoas demonstram isso? Fodendo uma coisa simples, inocente e sincera, o momento do “parabéns pra você”.</p>
<p>Você vai num aniversário de um caboclo de 30 anos e na hora de apagar as velinhas, já começa um infeliz a tumultuar cantando errado ou começando a música novamente. Custa cantar a droga do parabéns direito? Claro que não! E ainda que não houvesse o infeliz que tumultua, sempre existe o mais abominável e nefasto de todos, aquele que acha super engraçado falar “é pica! é rola” no lugar do “é pique! é hora” e “no seu cu!” ou invés de “ratimbum!”. Quando se tem 14 anos, falar tantos palavrões em tão curto espaço de tempo parece transgressor, ainda que deveras deselegante com seu priminho mais novo ou sua avózinha de 80 anos. Agora, com mais de 20, é simplesmente inaceitável essa deplorável conduta. Cresça!</p>
<p>Outra coisa que me preocupa é uma geração de jovenzinhos, esses de idade mesmo, que por alguma distorção da realidade &#8211; provavelmente causada pela <a href="http://letras.terra.com.br/xuxa/163244/" target="_blank">canção da Xuxa</a> &#8211; aprenderam que ao invés de se cantar “é pique!”, se canta “é big!”. Que porra é essa? Viral do supermercado Big? Tudo bem que nosso parabéns pra você é uma versão da música americana <a href="http://www.youtube.com/watch?v=QhKQKLiHxAw" target="_blank">Good Morning to All</a>, mas a brasileira foi feita por uma senhorinha no ano de 1942 e nunca que nessa época ela enfiaria a palavra big na letra. Concordo que o sentido do “pique” é altamente questionável, mas porque teríamos o “big”, em inglês, jogado assim do nada no meio da letra?</p>
<p>Outubro tá chegando aí. Por gentileza, quem tiver a honra de ser convidado a prestigiar meu natalício, saiba desde já que deve cantar a música em sua versão original, sem distorções maliciosas, conforme abaixo:</p>
<p style="text-align: center;"><em>Parabéns a você,<br />
nesta data querida,<br />
muita felicidade,<br />
muitos anos de vida!<br />
É pique, é pique!<br />
É pique, é pique é pique<br />
É hora, é hora!<br />
É Hora, é hora, é hora<br />
Rá &#8211; tim &#8211; bum!</em></p>
<p>Note que na letra é desejado ao aniversariante “muita felicidade”, no singular. Assim Dona Bertha, autora da versão em português, queria. Assim eu, Carlos Sivalli Ignatti, quero. Dispenso também o complemento “Com quem será que o Caco vai casar&#8230;”. Qualquer um que me conhece sabe que morrerei solteiro, tornando dispensável esse trecho.</p>
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		<title>Sobre bilhetes de loteria e mojitos</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Apr 2010 18:58:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Caco</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se você comprar um bilhete de loteria, ele só deixa ou não de estar premiado quando você confere o resultado. Como as chances do prêmio normalmente são ínfimas, há quem goste de adiar o momento de saber os números, apenas para ficar fantasiando as coisas que poderia fazer com o dinheiro. É o tipo de ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se você comprar um bilhete de loteria, ele só deixa ou não de estar premiado quando você confere o resultado. Como as chances do prêmio normalmente são ínfimas, há quem goste de adiar o momento de saber os números, apenas para ficar fantasiando as coisas que poderia fazer com o dinheiro. É o tipo de atitude que entraria fácil para a lista de pequenos prazeres da Amelie Poulain como uma livre variação do ditado “as vezes o caminho da viagem é melhor que o próprio destino”.</p>
<p>Hoje recebi um bilhete de loteria por e-mail. O título tinha apenas uma palavra, suficiente pra arrancar o primeiro sorriso do dia em uma manhã de ressaca e sono. Diferente de qualquer outro ser humano minimamente normal, não quis ler a mensagem assim que ela chegou. Por quase duas horas, quando em vez, eu dava uma olhada no título e ficava imaginando o que eu podia esperar do seu conteúdo. Não pensava em nada mirabolante, apenas como quão inusitado era tudo aquilo, já que nem é do meu feitio entregar mojitos com meu e-mail escrito em um guardanapo para meninas bonitas na balada. A verdade é que eu nunca tinha feito isso antes, por isso, num primeiro momento, minha expectativa no ato foi quase nula, bem diferente da que eu me auto-infligi ao adiar a leitura. Ela era alta e estava me fazendo bem.</p>
<p>Contei para algumas pessoas a história e a resposta quase sempre foi algo como, “Lê logo essa merda!” e chegou um momento que não pude mais resistir a pressão popular. Ok, confesso que até em minhas projeções pessimistas eu não tinha imaginado a resposta que li, até porque ela não foi ruim, apenas não o que eu imaginava. Para exemplificar, seria algo como eu fazer a prova, ser aprovado no concurso e descobrir que a vaga é incompatível com minha formação. Ainda assim, valeu a pena. O e-mail que ela mandou foi muito bacana e, ainda que o sorriso tenha diminuído, não tenho absolutamente nada do que reclamar. Ganhei uma ótima história pra contar e descobri que mojito é um ótimo agregador social. Quem sabe na próxima vez meu bilhete de loteria vem premiado.</p>
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