Um menino 4 olho
No documentário brasileiro Janela de Alma, o diretor alemão Wim Wenders diz em seu depoimento que nunca deixou de usar óculos, porque acostumou a ver o mundo emoldurado. Para quem não possuí o hábito de usar molduras oculares em tempo integral, esse tipo de declaração soa bastante bizarra, mas o diretor de Asas do Desejo, dentro da sua realidade, está coberto de razão. Só quem usa óculos há muito tempo entende a relação que se tem com ele.
Quando ainda era bem criança, minha mãe dizia para não olhar uma lâmpada acesa, pois tal prática estúpida me faria ter que usar óculos. Ela só não sabia que eu morria de vontade de usar. Admito poder estar errado, mas acredito que olhar pra luz não deva causar miopia, mas contrariei minha mãe e, com 4 graus em cada um dos olhos, estreei meu primeiro par de óculos aos 6 anos de idade. Eles eram redondinhos e tinham o Pato Donald desenhado em cada umas das hastes. Não me lembro a razão de ter escolhido esse modelo, mas não poderia ter começado pior. Além do automático apelido de “4 olho” que ganhei ao passar a usar óculos, meus primeiro par tinha uma espécie de alça nas hastes para que os óculos ficassem bem presos nas orelhas. Só que na ponta das alças tinha uma pequena bolinha dourada que era facilmente confundida com um brinco. Pronto, além de “4 olho” eu também era menininha. Esse primeiro par de óculos durou cerca de 1 ano. Quebrei-o junto do meu nariz num pequeno acidente escolar. Outros tantos vieram na sequência e nunca deixei de usá-los daí para frente.
Usar óculos atrai diversos estereótipos e acho que abracei a maioria deles com certo prazer. Eu nem era inteligente na escola, mas todos me chamavam de cientista, geninho, estudioso, tudo porque eu carregava em meu rosto uma armação acrílica com um par de lentes fundo de garrafa. Mas eu também era o “nerds” e por isso apanhava dos meninos mais velhos e valentões. Sim, soa muito clichê de televisão, mas é real e acredite, o que mais me incomodava não era ser chamado de “nerds” e sim o plural usado erroneamente no apelido. Tentar explicar que o certo é nerd, no singular, só piorava a coisa para o meu lado.
Apesar de todos os percalços, em nenhum momento me arrependi ter começado a usar. É difícil explicar, mas acredito que sempre tive a noção que o problema não eram os óculos e sim o julgamento das pessoas. Mesmo na adolescência quando fui um moleque bastante feio, nunca cogitei a ideia de parar de usá-los, não por amor ou convicção, apenas porque tinha a noção que tirá-los não ia resolver nada. Já no início da faculdade, tentei usar lentes de contato e, em apenas 3 dias, descobri que o trabalho que dava para usar aquela porcaria, não compensava meu esperado ganho estético. Voltei atrás sem pestanejar.
Na prática nunca me incomodei de verdade em usa-los. Pra mim sempre foi um hábito automático colocar ao acordar e tirar para dormir. Fácil assim. Durante o dia, raramente me lembrava de estar com eles no rosto. Depois de adulto os estereótipos começaram a me incomodar um pouco, mas isso nem chegou a ser um problema. Nada que uns piercings na orelha e meia dúzia de palavrões não puderam resolver. E meu grau nem era elevado. Estabilizado desde os 23 anos, tinha menos de 1 grau em cada olho, ou seja, eu usava óculos não por gostar de usá-los, simplesmente por não me incomodar com isso e até me sentir bem por estar enxergando melhor.
E tiveram algumas compensações bem bacanas. Por exemplo, é impossível beijar alguém sem que as lentes de seus óculos fiquem todas ensebadas. Em um não–relacionamento que tive (acredite, isso existe), quando estava sentindo saudades da cabrocha, dizia no Twitter, “Meus óculos andam limpinhos demais…”. Era legal também tirá-los às vezes e ouvir comentários do tipo, “Olha, não sabia que você tem olhos verdes!”.
Após 24 anos de uso ininterruptos e uns 8 pares diferentes, no final de 2009, acordei um dia e resolvi que não queria mais usar os óculos. Sabe quando uma mulher corta o cabelo e acha que vai mudar a vida? Foi mais ou menos baseado nesse princípio idiota que tomei minha decisão. Eu tinha os meios, condições físicas e financeiras e a força do argumento “por que não?” ao meu lado. Entre a decisão e a cirurgia, foram apenas 20 dias. Lasik no esquerdo, PRK no direito. Um sucesso.
Há pouco mais de três meses vivo sem esse peso extra no rosto. Minha sensibilidade à luz aumentou consideravelmente, mal consigo ficar de olhos abertos num dia de sol, mas pelo menos agora é mais prático usar os óculos escuros. Descobri que sinto falta dos óculos mais a noite do que de manhã, não foram poucas as vezes que tentei tirá-los antes de dormir. Até hoje é comum eu procurá-los quando saio do banho. As vezes ainda passo o dedo no nariz para mexer na armação, ainda que isso mais pareça mais uma leve coçadinha. Eu não sabia o quanto é difícil ficar com os olhos abertos ao andar contra o vento, cada poeirinha parece um pedregulho. E agora todo mundo sabe que meus olhos são verdes, o que tornou a descoberta um tanto sem encanto.
Enfim, no geral, viver sem óculos é quase a mesma coisa. Há muitos anos parei de ser chamado de “4 olho”, andar na chuva agora é melhor e não passei a ser mais desejado pelas mulheres por estar sem eles. Se eu tivesse só cortado o cabelo pra mudar a vida, certamente teria saído bem mais barato. Se bem que nem cabelo para cortar eu tenho. Deixa assim então.




