Carlos Sivalli Ignatti

Tambm conhecido como Caco Ignatti, Carlos Ignatti, Caquera, Caquinho, Caco.

Um menino 4 olho

No documentário brasileiro Janela de Alma, o diretor alemão Wim Wenders diz em seu depoimento que nunca deixou de usar óculos, porque acostumou a ver o mundo emoldurado. Para quem não possuí o hábito de usar molduras oculares em tempo integral, esse tipo de declaração soa bastante bizarra, mas o diretor de Asas do Desejo, dentro da sua realidade, está coberto de razão. Só quem usa óculos há muito tempo entende a relação que se tem com ele.

Quando ainda era bem criança, minha mãe dizia para não olhar uma lâmpada acesa, pois tal prática estúpida me faria ter que usar óculos. Ela só não sabia que eu morria de vontade de usar. Admito poder estar errado, mas acredito que olhar pra luz não deva causar miopia, mas contrariei minha mãe e, com 4 graus em cada um dos olhos, estreei meu primeiro par de óculos aos 6 anos de idade. Eles eram redondinhos e tinham o Pato Donald desenhado em cada umas das hastes. Não me lembro a razão de ter escolhido esse modelo, mas não poderia ter começado pior. Além do automático apelido de “4 olho” que ganhei ao passar a usar óculos, meus primeiro par tinha uma espécie de alça nas hastes para que os óculos ficassem bem presos nas orelhas. Só que na ponta das alças tinha uma pequena bolinha dourada que era facilmente confundida com um brinco. Pronto, além de “4 olho” eu também era menininha. Esse primeiro par de óculos durou cerca de 1 ano. Quebrei-o junto do meu nariz num pequeno acidente escolar. Outros tantos vieram na sequência e nunca deixei de usá-los daí para frente.

Usar óculos atrai diversos estereótipos e acho que abracei a maioria deles com certo prazer. Eu nem era inteligente na escola, mas todos me chamavam de cientista,  geninho, estudioso, tudo porque eu carregava em meu rosto uma armação acrílica com um par de lentes fundo de garrafa. Mas eu também era o “nerds” e por isso apanhava dos meninos mais velhos e valentões. Sim, soa muito clichê de televisão, mas é real e acredite, o que mais me incomodava não era ser chamado de “nerds” e sim o plural usado erroneamente no apelido. Tentar explicar que o certo é nerd, no singular, só piorava a coisa para o meu lado.

Apesar de todos os percalços, em nenhum momento me arrependi ter começado a usar. É difícil explicar, mas acredito que sempre tive a noção que o problema não eram os óculos e sim o julgamento das pessoas. Mesmo na adolescência quando fui um moleque bastante feio, nunca cogitei a ideia de parar de usá-los, não por amor ou convicção, apenas porque tinha a noção que tirá-los não ia resolver nada. Já no início da faculdade, tentei usar lentes de contato e, em apenas 3 dias, descobri que o trabalho que dava para usar aquela porcaria, não compensava meu esperado ganho estético. Voltei atrás sem pestanejar.

Na prática nunca me incomodei de verdade em usa-los. Pra mim sempre foi um hábito automático colocar ao acordar e tirar para dormir. Fácil assim. Durante o dia, raramente me lembrava de estar com eles no rosto. Depois de adulto os estereótipos começaram a me incomodar um pouco, mas isso nem chegou a ser um problema. Nada que uns piercings na orelha e meia dúzia de palavrões não puderam resolver. E meu grau nem era elevado. Estabilizado desde os 23 anos, tinha menos de 1 grau em cada olho, ou seja, eu usava óculos não por gostar de usá-los, simplesmente por não me incomodar com isso e até me sentir bem por estar enxergando melhor.

E tiveram algumas compensações bem bacanas. Por exemplo, é impossível beijar alguém sem que as lentes de seus óculos fiquem todas ensebadas. Em um não–relacionamento que tive (acredite, isso existe), quando estava sentindo saudades da cabrocha, dizia no Twitter, “Meus óculos andam limpinhos demais…”. Era legal também tirá-los às vezes e ouvir comentários do tipo, “Olha, não sabia que você tem olhos verdes!”.

Após 24 anos de uso ininterruptos e uns 8 pares diferentes, no final de 2009, acordei um dia e resolvi que não queria mais usar os óculos. Sabe quando uma mulher corta o cabelo e acha que vai mudar a vida? Foi mais ou menos baseado nesse princípio idiota que tomei minha decisão. Eu tinha os meios, condições físicas e financeiras e a força do argumento “por que não?” ao meu lado. Entre a decisão e a cirurgia, foram apenas 20 dias. Lasik no esquerdo, PRK no direito. Um sucesso.

Há pouco mais de três meses vivo sem esse peso extra no rosto. Minha sensibilidade à luz aumentou consideravelmente, mal consigo ficar de olhos abertos num dia de sol, mas pelo menos agora é mais prático usar os óculos escuros. Descobri que sinto falta dos óculos mais a noite do que de manhã, não foram poucas as vezes que tentei tirá-los antes de dormir. Até hoje é comum eu procurá-los quando saio do banho. As vezes ainda passo o dedo no nariz para mexer na armação, ainda que isso mais pareça mais uma leve coçadinha. Eu não sabia o quanto é difícil ficar com os olhos abertos ao andar contra o vento, cada poeirinha parece um pedregulho. E agora todo mundo sabe que meus olhos são verdes, o que tornou a descoberta um tanto sem encanto.

Enfim, no geral, viver sem óculos é quase a mesma coisa. Há muitos anos parei de ser chamado de “4 olho”, andar na chuva agora é melhor e não passei a ser mais desejado pelas mulheres por estar sem eles. Se eu tivesse só cortado o cabelo pra mudar a vida, certamente teria saído bem mais barato. Se bem que nem cabelo para cortar eu tenho. Deixa assim então.

Meus óculos

Quando um filme iraniano vale um emprego

Entre 1999 e 2000 peguei gosto em ir ao cinema, principalmente sozinho. E, apesar de nessa época os Cinemarks estarem bombando, nunca fui chegado em cinema de shopping, por isso não foram poucas as vezes que eu saí da inóspita Z/L para ir ao Belas Artes ou Espaço Unibanco e assistir um filme aleatório. O importante era que fosse um filme alternativo, o famoso filme “iraniano”, ou como um amigo falou uma vez, “Carlão, puta que pariu, você só assiste essas merdas de filmes uraniano!”.

No entanto sempre tive o bom senso de não cair na armadilha de ver qualquer filme conceitual sem sentido. A película precisada d’algo mais pra me chamar atenção. Assisti muita coisa bacana e muitas outras bem ruins, mas posso dizer seguramente que o filme que mais me encantou na época foi Magnólia. E, na verdade, até hoje ele encabeça minha lista de filmes prediletos.

Lembro que quando assisti Magnólia pela primeira vez, eu não fazia a mínima ideia do porquê caralhos tinha aquela chuva de sapos no filme, mas não me importava, aquilo pra mim pareceu a redenção dos personagens, o que até estava correto, mesmo que eu na ocasião eu não tivesse o embasamento para entender.

Devido esse encantamento, fazia questão de dividir meu amor pelo filme com os outros. Logo virei o “maluco que gostou de Magnólia”. Incontáveis vezes me enfiei em discussões explicando a história e tentando convencer os outro, quase sempre sem sucesso, que o filme era legal.

Logo que assisti, fiz uma resenha sobre o filme no blog de um finado site que tive. Em 2001, numa entrevista de emprego, passei o link desse site para que o dono da empresa pudesse avaliar meus conhecimentos. Pouco tempo depois fui contratado e, em uma conversa informal, meu chefe confessou que me escolheu por conta da resenha sobre Magnólia. Não que ele tivesse achado o texto genial ou mesmo tido o mesmo encantamento que eu pelo filme, muito pelo contrário, ele me disse, “Esse filme é muito ruim. Para ter gostado dele, o cara só pode ser bom. Ninguém incompetente pode gostar daquilo”. Torpe ou não, o motivo me rendeu o emprego que estou até hoje. São mais de 8 anos trabalhando no mesmo lugar, justamente porque um dia, aleatoriamente, resolvi ver Magnólia no cinema. O próprio filme trata desse tipo de coincidência, o que torna toda essa história mais especial ainda para mim.

Uma das coisas que mais me encantou em Magnólia foi o trecho onde os personagens cantam a música Wise Up da Aimee Mann.

Por gostar de Magnólia e tantos outros filmes alternativos, ganhei fama de só assistir filmes iranianos. O irônico é que nunca ví um filme feito no Irã. Será que são bons?

Ensaio sobre o desapego

Até para o que não é bom é preciso ter dom. Para o cara que a vida toda foi certinho, é difícil virar um canalha do dia pra noite. Mesmo aquela garota linda, atraente, mas comportada, tem sérias dificuldades pra sair na balada pegando geral. Mentir, dissimular, ser apático e tantos desvios comportamentais, certamente são dons inatos que podem ou não ser exercitados no decorrer da vida.

A introdução serve pra falar de uma coisa que há tempos vem me incomodando, o desapego da geração anos 90. Talvez seja a falta de surra ou o excesso de psicologia infantil, mas o fato é que temos uma garotada entrando na vida adulta com um dom incrível de se não comprometer com absolutamente nada, seja um relacionamento, uma amizade ou uma simples promessa.

Atrás de lindos discursos sobre melhores amizades e abraços pseudo significativos, o que existe na verdade é um umbigocentrismo escroto que pode ser exemplificado por uma coisa que uma garota de 23 me disse certa vez (e me desculpe, garota, se você estiver lendo, mas é verdade), “Eu sou a pessoa mais preparada pro amor que conheço”. Como diria Boris Casoy, como alguém no alto dos seus 23 anos tem a pachorra de se considerar, de coração aberto, a “mais preparada” para o amor? Quem é preparado pro amor nessa vida? O que é ser preparado pro amor? A cabrocha, na ocasião, ainda ficou ofendida quando desdenhei da sua afirmação. Fato é que qualquer atitude dela depois disso só provou que eu estava certo. Aliás, já citei que eu sempre tenho razão?

Existe uma tênue linha que separa a imparcialidade da falta de lealdade e considero isso um dos outros graves problemas que assolam essa juventude. Nem quando eu tinha 20 anos de idade, acredite, dei as costas pra alguém que me ajudou, muito menos por um amigo de balada ou mesmo uma peguete qualquer. Amigo é patrimônio, lealdade é o alicerce e reciprocidade é a manutenção. Sem essa tríada, não rola.

Outro pecado que me incomoda é o da omissão. Uma vez que se cansou da coisa, para que ir lá dar uma explicação, uma satisfação ou sei lá o quê? Muito mais simples sumir, se omitir, dizer que não é nada. Mais do que falta de consideração, isso mostra uma certa preguiça mental, afinal é muito mais simples não dizer nada do que parar pra pensar o porquê de tudo ter acabado. Ou pior, a pessoa se dá ao trabalho de inventar uma mirabolante história, quando a verdade simples seria tão mais fácil pra todos.

Citei três exemplos de coisas que além de ter vivido, sei de amigos com histórias parecidas. Em nome do desapego e de relações leves e sem rótulos, valores importantes viraram commodity para discursos pré-fabricados. E isso não é simplesmente imaturidade, é resultado de uma criação com valores omissos, falta de exemplos, tudo regado a muito leite com pêra e sucrilhos vitaminados.

Não vou mentir que escrevi esse texto preocupado com meus vindouros descendentes ou mesmo com o futuro do Brasil. Minha motivação maior é que não acompanhei o ritmo de meus amigos da mesma geração e acabei tendo de me relacionar com pessoas as vezes 10 anos mais jovens que eu. E mesmo que tenha uma boa surpresa aqui outra acolá, no geral tenho ficado cada vez mais decepcionado com o que encontro. Não sei ao certo qual a solução, mas ainda que essa não seja minha natureza e eu não tenha o dom como citei no primeiro parágrafo, talvez eu deva me tornar um ser desapegado também. Gente velha ainda consegue aprender?

Música

Todo jovenzinho ou jovenzinha, não importando sua idade real, em alguma fase já tentou se afirmar usando a música como instrumento de auto-rotulagem. Eu mesmo, lá com meus 14 ou 15 anos, queria provar que Engenheiros era melhor que Legião e que só por que ouvia Green Day e Offspring, era adepto do movimento punk-rock. O bom de ser jovem é que você tem uma espécie de licença para ser imbecil e pode, assim como eu, contar essas coisas como anedota alguns anos depois.

Mas já com uns 17 anos comecei de fato a formar meu apurado, seleto, incrível e incompreendido gosto musical que carrego até hoje e não vejo sinais de muda-lo tão cedo. E não foi por acaso que isso aconteceu, fui fortemente influenciado por um cara que não canso de dizer, mesmo que quase nunca ele possa ouvir pessoalmente, que foi o responsável por formar meu gosto musical, o Marcelo.

No final dos anos 90, a música eletrônica estava pegando forte. Enquanto Prodigy, Chemical Brothers e Fatboy Slim bombavam com um tal de big beat, bandas convencionais como U2 e Barão Vermelho tentavam dar um ar moderninho aos seus novos álbuns usando influencias não acústicas. Mais no início da década e depois paralelamente a essa cena, um outro estilo muito menos comercial nascido na Inglaterra, ganhava um punhado de adeptos por trazer batidas eletrônicas lentas, letras melancólicas e uma sonoridade bastante inovadora e própria. Algum crítico batizou de trip hop e desde então o estilo perdura na mesma pegada que nasceu, com poucos e fiéis admiradores. Um deles sou eu.

E só quem gosta sabe quanto é difícil ouvir trip hop no Brasil. Primeiro porque ninguém sabe o que é isso, quando muito a pessoa conhece Massive Attack e Portishead, mas só de nome. Outra é que as bandas nunca vem tocar ou mesmo tem seus álbuns lançados por aqui. Então depois de um tempo cansei de tentar explicar. Se a pessoa não demonstra ter sabores musicais mais elevados, limito-me a dizer que curto umas bandas estranhas de lugares distantes. Normalmente essa explicação basta.

Voltando aos meus 18 anos, lembro de Marcelo me falar de um punhado de bandas que foram me levando a outras e mais outras e, comprando alguns CDs (numa época que ainda se comprava CDs) e baixando muita coisa pelo Napster via dial-up, comecei a montar minha atual playlist que desde então vem sendo apenas acrescida e refinada.

Na época, o Moloko com sua Fun For Me bombou graças a propaganda do Lucky Strike. O Massive Attack lançou o Mezzanine, considerado por muitos, incluindo eu, o melhor álbum do banda. Depois do lançamento de seu álbum homônimo, o Portishead gravou o fantástico Roseland NYC com uma versão ao vivo de Roads que é do cu cair da bunda. Já o Morcheeba alcançou o reconhecimento em seu segundo álbum, o Big Calm e demorou um bocado pra eles conseguirem lançar um CD tão bom quanto ele. E tinha também o Moby, que apesar de não ser tão do estilo, tinha uma pegada eletrônica bem bacana. Em resumo, o final dos anos 90 foi uma época ótima pra se conhecer o trip hop e, graças ao Marcelo, eu tive essa chance.

Alguns anos depois quando conheci Tarcila, pude enriquecer ainda mais minha biblioteca. Foi ela que me apresentou Tricky, Sneaker Pimps e Smoke City, além da sua própria banda, o Belleatec. Daí pra frente, com uma conexão rápida e um HD decente, não parei de baixar e conhecer bandas novas de todos os lugares do mundo como Airlock, Lunascape e Hooverphonic da Bélgica, Khoiba da República Tcheca, Mudville e Puracane dos EUA, Everybody Loves Irene da Indonésia e Flunk da Noruega.

Apesar de também ouvir tantos outros estilos musicais, foi no trip-hop que achei letras, vocais e batidas que acompanhavam meu humor bastante instável. Associo muitas músicas à pessoas ou mesmo fases importantes da minha vida. Ok, sei que todo mundo faz isso, até quem gosta da Lady Gaga, mas o trip hop combina comigo e, ainda que não seja um fenômeno cultural mesmo nos meios alternativos, continuo amando incondicionalmente o estilo.

Fato é que nem sei se o gosto musical de Marcelo hoje em dia é igual ao meu. Pra mim pouco importa. No coração guardo o trip hop que ele me apresentou. Numa prateleira, guardo um CD que ele meu deu de aniversário.

Morcheeba - Big Calm

Tudo que coube em poucos segundos

E de repente depois de tanto tempo você tava ali parada do meu lado, de blusa, como sempre esteve, mas com um tênis laranja e uma pequena bolsa verde onde sua até então inseparável câmera certamente não caberia, sinal de que as coisas não estão assim tão iguais como sempre, mas isso é óbvio, está tudo diferente, meus olhos não são os mesmos, te vêem de forma muito diferente, ainda que meu olhar não tenha te enganado nem por segundo já que não deu pra eu disfarçar, e ainda que você tenha dito por aí que sou inconstante, não haveria como eu ser mais previsível que isso, se antes eu nunca escondi o que sentia, não haveria o porquê esconder agora, assim num pulo você se afastou e noutro eu fui embora porque já estava indo mesmo.

Realmente tudo mudou. Agora você tem um tênis laranja e uma bolsa verde.

Eu sempre tenho razão

O título auto-explicativo e sem modéstia alguma é real e quero ilustra-lo com um causo recente.

Sábado desses estava bebendo meu segundo pint de Heineken na companhia um amigo quando, de repente, um desconhecido número acende na tela do meu aparelho celular. Até aí, nada anormal, todo mundo tem o direito de te ligar errado por volta da 1h30 da madruga. O problema é que a pessoa do outro lado realmente queria falar comigo, mesmo que isso não deixe de caracterizar o bizarro telefonema como um engano.

Ainda sem saber de quem se tratava devido ao barulho do bar, saí correndo para a área de fumantes quando escutei um, “É a Gabi*”, “Mas que Gabi?”, “A Gabriela*”. Um surto de nostalgia invadiu meu coração. Não escutava aquela voz há pelo menos um ano. E não somos nem amigos há bem mais tempo que isso.

Quem me conhece sabe de quem estou falando e num nível ou outro, conhece a história. Fato é que desde o ocorrido carrego um bordão que é “essa menina ainda vai me procurar”. Deveras criticado por ele, o pessoal dizia que nunca aconteceria e que eu nem deveria esperar isso. Na verdade eu nunca esperei, dizia aquilo mais como um fato concreto do que como um desejo contido. Enfim, aconteceu, da forma mais inusitada possível.

Aparentemente ébria, Gabriela* limitava-se a dizer que eu havia fodido sua vida, num repetitivo mantra mesclado com um som que não pude distinguir se eram risadas ou prantos. Mais engraçado foi o orgulho juvenil da menina, uma vez que mesmo me ligando no inicio da madrugada pra não me contar nenhuma novidade, se mostrou bastante rebelde ao dizer que não interessava onde estava quando perguntei sua localização. Assim como me ligou, também desligou do nada o telefone. Ainda trocamos alguns SMSs, mas foram tão desnecessários e improdutivos quanto o telefonema.

Mesmo que eu tenha acertado o fato de que cedo ou tarde ela me procuraria, até agora não sei para quê ela fez isso. Só sei que me senti envaidecido. Não pelo fato de achar que a saudosa Gabriela* ainda pensa em mim, já superei essa história e na boa, caguei pra ela. Fiquei feliz por ter, mais uma vez, atestado a veracidade da minha teoria de que sempre tenho razão.

Mas na vida real, ter razão não significa ser feliz. As vezes as duas coisas se encontram, como nessa bizarra história. As vezes, simplesmente não.

* Gabriela é um nome fictício que dei para a cabocla, ou como uma amiga sugeriu, para a piveta.

Graciosa, como Ganesh

Foi por volta de 2002 ou 2003. Ela era do Rio, recém chegada em SP, mexia em PHP-Nuke (coisa que eu não entendia), fumava horrores e tinha mania de corrigir meus textos. Nada poderia ser mais insuportável. Não ia durar muito, não tinha como.

Ela também tinha tudo pra me odiar. Meses depois montamos um núcleo de internet na firma e, mesmo quando toda lógica apontava que ela seria minha chefe, eu acabei virando o patrão. Além disso, ela tinha um stalker que gerava vários atritos entre nós por razões pessoais e profissionais. Era certeza que isso não ia longe, não era possível durar.

Por fim, por ordens superiores, ela foi demitida quando passava por um momento delicado em sua vida pessoal. Tinha que ser a pá de cal. Ela não olharia na minha cara nunca mais.

Mas como toda minha história com ela, a lógica foi subvertida. Essa carioca que odeia calor e carnaval me mostrou bandas da trip-hop que ouço até hoje. Foi com ela que aprendi muitas coisas, dentre elas, a enxergar por cima de estereótipos e simplificações. Aprendi na prática o que é estender a mão para uma pessoa, ainda que eu não compreendesse ao certo o que ela estava sentindo. E quando eu passei pelo mesmo que ela já havia sentido, ainda que a um oceano de distância, ela me escutou com o carinho e sabedoria que, no passado, eu mesmo não consegui oferecer à ela.

Com conversas incríveis que foram da graça de Ganesh a relacionamentos insólitos de ambas as partes, eu e ela construímos, tijolinho por tijolinho, a base sólida para uma amizade que já dura vários anos. E digo seguramente que não diminuiu nada, ainda que fisicamente, estejamos em continentes diferentes. Nunca perdemos contato. Nunca deixamos de dividir uma história. Nunca deixamos de fazer planos que não saem do papel, mas estamos sempre ali, disponíveis um para o outro, como amigos de verdade devem sempre estar.

No dia de hoje minha amiga completa mais um ano de vida. Sei que hoje ela está mais feliz e linda do que nunca. Os anos fizeram bem para sua alma e seu coração, hoje muito bem preenchido por seu marido, o qual já tive o prazer de conhecer pessoalmente.

Parabéns, Tarcila. Desejo a você todos os clichês que a data exige e muito mais. Saiba que nada mudou. Ainda te amo, incondicionalmente.

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(agradecimento especial à @nizoca que gentilmente revisou o texto pra mim)

Sobre 2009

Eu até citaria item por item porque 2009 tem mais é que ser esquecido, mas não vou. Pra citar eu teria que mexer onde não se deve. Deixa lá. No limbo onde me colocaram, colocarei-os também.

Essa porcaria de 2009 não merece nem um post decente. Foi um ano beta-test que não deu certo.

Ok, dezembro foi legal. Talvez prelúdio de um 2010 com mais felicidade apoiada em pilares sólidos. Na boa? Eu mereço. Oxalá o carnaval chegue logo.

P.S. Minha resolução pra 2010 é 1920 x 1280 pixels.

Se você pudesse entender

Eu não menti quando disse que achava tudo aquilo que fiz errado. Tão difícil era pra você aceitar quanto pra eu explicar. Fiz o que consegui de forma incompleta e falha, honesta ao seu modo. Era o máximo e não foi suficiente.

Não sei o tamanho da chaga que ficou. A cólera sei que ainda existe. Se na sua lembrança não sou inimigo, ao menos estou naquele limbo de pessoas desprezíveis que a gente guarda no coração como referência ruim.

Normalmente eu diria que o que começa errado não há de terminar melhor. Acontece que nem sei dizer se começou errado. Certo é que não foi da melhor forma. E assim seguiu-se. Queria hoje fazer muitas coisas diferentes das que fiz e nem todas elas seriam exatamente felizes pra você, mas ao menos teriam consistência. Hoje sei o real tamanho de uma lacuna num entendimento. Oxalá eu pudesse não ter deixado tantas.

Me perdoa, nem que seja um dia desses.

Antiga companheira

Se não me falha a memória, te conheci ainda na década de 90, tipo 1996, quando o É o Tchan despontava nas paradas de sucesso e o táxi do Gugu era a atração dominical da família brasileira. Na época, apontei como responsável pelo início dessa nossa relação tão próxima, meu então chefe que me deixava num estado de nervos até então sem precedentes. Hoje pensando bem, não foi ele que colocou você na minha vida. Era inevitável nos conhecermos.

No começo conviver com você foi estranho, mas nunca assustador. Claro que tive que reaprender a fazer certas coisas, como escrever a mão ou segurar uma xícara. E como você bem sabe, até tentei me livrar da sua constante presença, sem sucesso, até perceber que você não gostava de bebida. Bastavam 4 copinhos de cerveja que você ia embora, retornando no dia seguinte com o mesmo vigor e companheirismo involuntário de sempre.

Fato é que estamos há mais de 10 juntos e convivendo razoavelmente bem. Claro que muitas vezes você apareceu de forma exagerada me deixando constrangido, levantando perguntas dos outros e fazendo eu me desdobrar para te esconder. Ainda assim, sempre aceitei sua companhia de forma bastante natural.

Por causa dessas coisas da vida – nesse caso coisas boas – este ano, sem mais nem menos, me dei conta que você tinha ido embora e isso foi incrivelmente libertador. Sério, durante um tempo eu olhei minhas mãos e você não estava lá, nem em sua mais sutil manifestação. Assim, de repente, uma companheira de tantos anos saiu da minha vida e não deixou saudade alguma. Vi na sua ausência uma evolução interna incrível.

Mas acho que você sentiu minha falta. Novamente, por conta das coisas da vida, assim como foi embora, de mansinho você voltou, nem melhor nem pior que antes. Só que uma coisa mudou entre nós, hoje entendo porque você está na minha vida. E mesmo que agora eu saiba que você não vai embora tão cedo, vou dormir todos os dias sabendo que um dia, e sim, espero ansiosamente esse dia, você vai embora novamente. E se tudo der certo, não voltará. De novo não vai deixar saudade alguma, mas lembrarei de você pra sempre, com carinho. Aprendi muito com você, na sua presença e ausência.