Carlos Sivalli Ignatti

Também conhecido como Caco Ignatti, Carlos Ignatti, Caquera, Caquinho, Caco.

Segurança

Me lembro que era como acordar bem cedo num dia frio e chuvoso. Eu olhava pela janela e não queria sair da cama. Só que na verdade estava sol e eu enxergava a paisagem como queria ou como podia ver. Era a falta que veneno fazia e a solução foi trocar uma droga por outra. Há quem diga que é como uma diabetes, seu corpo não ajuda e você toma o remédio, só que quando é na cabeça o buraco é mais para cima. Você vê tudo acontecendo e prefere não fazer nada, mesmo que, quando vez, sinta um arrepio na espinha. Só que não é bom como ver um filme de suspense porque é com você e é em tempo real. E aí ficar embaixo da coberta deitado, imaginando aquele dia frio e chuvoso lá fora, tornou-se a opção mais segura.

Tem dias que eu ainda sinto frio de manhã e o cobertor permanece alí tão quentinho e seguro quanto antes. Mas também lembro que a duras penas aprendi que vida acontece lá fora e que molhar o pé na chuva não é motivo pra ter medo.

Trinta e uns dias

Aí que um dia você acorda e tem 30 anos. Não era pra mudar nada porque até poucos minutos atrás, vc tinha 29 e na real, não muda mesmo, mas faz pensar no que você viveu até alí.

No meu caso eu não acordei com 30. Virei a meia noite de um dia 10 pro dia 11 em um mercadinho mequetrefe comprando gelo. Logo depois fui recepcionado por um efusivo parabéns pra você, inicialmente cantado de forma avacalhada como todos cantam hoje e me incomoda muito. Felizmente tudo foi corrigido e cantado certinho depois. Viva a Paula, ela me entende.

Chegar aos 30 não foi fácil. E foda-se o papo de que a vida é bela, simplesmente não concordo. Digo seguramente que em muitos períodos mais sobrevivi do que vivi. Achei que nunca passaria dos 28 para os 29. Atravessar a barreira dos 30 até que foi fácil se comparada há um ano antes. E o fato é que fiquei velho e trouxe comigo vários clichês da idade.

Não faço mais tanta questão de conhecer gente nova. Mesmo com 90% dos meus amigos tento casado ou virado umas farsas por conta de namoros que os impedem de ter uma vida social, prefiro ainda cativar as velhas amizades e selecionar bem quem entra na minha vida. Nem é precaução, só não tenho mais o saco de outrora porque aprendi bem distinguir quem vem pra fazer diferença e quem só vem pr afaezr barulho. E tem barulhos que até parecem bons no começo, mas só parecem.

Diminuí a bebida porque beber não me traz mais aquela satisfação juvenil de ficar bem louco. Tenho uma suicida tendência a pensar mais na vida quando estou ébrio. Prefiro então me enfiar numa enrascada dessas apenas em situações devéras alto-astral. Fora isso, umas poucas cervejinhas, ou quem sabe nenhuma, já me deixam feliz.

Ainda sou um total idiota quando se trata dos meus sentimentos. Esse poderia ser o maior parágrafo de todos, mas não vai ser porquê, mesmo sendo tudo torto e mal resolvido na minha vida afetiva, aprendi a tomar decisões e não deixar as soluções ao sabor do acaso. Isso não quer dizer que hora ou outra não aconteçam falsetas que me tirem do trilho. Mas se tem um trilho pra voltar, já tá bom.

Preciso tb mudar de vida. No ano que a a Ãfrica vai ficar logo alí, vou mudar tudo. Do ganha pão ao modo de vestir. Ok, tudo é muita coisa, não vou trocar de sexo nem de sexualidade, isso não me interessa. Também não vou operar as vista nem fazer implante capilar, sou feio conformado. Ainda assim quero tomar novo rumo e quem sabe com 31, eu deixe de ser amarguinho e veja até beleza na vida.

O tal do plano maligno

Acho brega, mas é quase irresistível começar um blog com um post falando sobre o que se esperar do espaço.

Em épocas mais rebeldes, confesso que faria um post todo azedinho, dizendo que foda-se o que você pensa sobre mim ou o que vou escrever. Na verdade, ainda quero que se foda, mas é devéras antipático esse discurso. Até porquê, minha intenção aqui não é desagradar mas sim escrever o que penso, gosto e, quem sabe, proporcionar para quem lê alguns minutos legais.

Mas esse aqui não é meu primeiro blog. Entre 1999 e 2002, mal e porcamente, eu tinha um site com um blog que carinhosamente eu chamava de diário, hospedado no HPG que não está morto, mas nem se parece com o que ele era no passado. E o nome diário, traduzia bem o espírito daquele espaço. Eu realmente usava ele pra falar dos meus mimimis diários. Era legal, mas era uma bosta e, com o tempo, fui percebendo isso. Me lembro que o pessoal da repartição, com destaque para meu amigo Jubash, adorava tirar sarro de mim por conta do que eu escrevia lá.

Já na metade de 2002, com o site e o blog semi-abandonados, fiz um penúltimo post que me fez ver como deveria ser meu blog. O texto eu perdi pra sempre, mas basicamente falava sobre meu pai que havida morrido há poucos meses. Não era mimimi, foi um texto onde eu descrevia de forma clara, o processo de perder alguém que já não queria há muito estar vivo. Alí eu saquei como eu queria um blog pra mim. O problema é que depois só tive saco para fazer mais um post falando sobre a mudança de foco. Nunca mais atualizei. Perdeu-se e não deixou saudades.

O Ardil é um domínio que possuo desde 2004 ou 2005. Nunca usei-o para nada útil, mas sempre gostei da grife, apesar das piadinhas com o nome. Decidi que queria ter um blog e que esse blog seria o no Ardil. E ele teria que ter um formato diferente, por isso fiz tudo do zero, layout, programação e afins. O resultado é isso que se vê, horizontal, porquê é esse nosso sentido de leitura e também porque os monitores são horizontais. O desperdício de espaço sempre me incomodou. Por isso também, estou colocando provisoriamente posts enrolação, apenas para os visitantes terem noção da mecânica de rolagem horizontal. Em breve tiro essas percarias.

Vai vingar? Sei lá, espero que sim. No que depender da minha vida bandida e das histórias que gosto de contar, post é o que não vai faltar.

Lições

Se há uma coisa que sempre se pode tirar de relacionamentos que deram errado, são lições. Vítima ou vilão — não importa em qual categoria você se encaixe melhor — você sempre pode aprender algo com um final conturbado de relacionamento.

Isto posto, posso dizer que, em 2008, aprendi as mais duras e valorosas lições sobre como escolher, cativar, se relacionar e cuidar da próxima pretendente a dona deste bobo que bate no lado esquerdo do meu peito.

Seguindo o que achei ter aprendido, não me afobei e, ao sabor do acaso, conheci uma garota simplesmente encantadora. Bom gosto cultural, linda, inteligente e, veja só, solteira. Mas, por incrível que pareça, o maior motivo que me levou a me aproximar dela com intenções maiores do que uma simples ficada, foi o fato dela também não estar procurando ninguém. Essa foi uma das lições que tive com meus relacionamentos anteriores: a carência pode enganar nossos sentimentos e, uma coisa que parecia forte, some igual baforada em vidro.

Uma vez escolhida, sabia que não poderia demorar muito para beijá-la. Ela queria fazer amigos e eu não estava interessado nesse cargo. Eu só queria pegar ela pela nuca e beijar sua boca. E, novamente, tudo ocorreu perfeitamente. Em um descompromissado pós-balada, estávamos nos beijando como se não houvesse amanhã.

Ter ela mais próxima, emocionalmente falando, parecia um desafio maior. Tínhamos a tal química física, mas eu ainda era só um peguete. Tive que ter paciência, ouvir alguns nãos e tantos outros sins. Mas, devagarinho, ouvi dela um “eu te amo†espontâneo. A pequena estava conquistada? Parecia que sim, afinal, eu e ela vivemos um mês de namoro que, para mim, excedia o perfeito. E essa felicidade, acima de tudo, era concreta. Eu tinha junto de mim alguém que preenchia critérios lógicos e emocionais. Não havia ciúme, brigas, insegurança ou uma história conturbada no início. Ela gostava de mim porque eu era legal, e não por escutar suas lamentações. Fazia sentido gostar dela e quando conversávamos, sentia sem medo de errar que ela vivia os mesmos sentimentos que eu, com a mesma intensidade.

Numa segunda-feira a tarde, eu disse a um amigo pelo MSN, “Cara, nunca fiz as coisas tão certas num tempo tão certo. Por isso tenho certeza que agora vai. E se não for, o que duvido que aconteça, só tento novamente depois dos 35â€. Porque fui dizer isso?

Na mesma segunda-feira, eu e ela nos encontramos para ir ao cinema. Tudo ok, filme assistido, beijos demorados, olhares cúmplices, conversas existenciais, risadas espontâneas. Uma noite perfeita, interrompida por uma frase de seis palavras que, ao ouvir, meu coração já soube que ali tudo mudaria. Ela me disse “Viu? Preciso te falar uma coisa…†.

Resumindo, mas resumindo muito, levei um pé na bunda. No dia, o pretexto foi uma inesperada viagem à Espanha que aconteceria dali a seis meses. O passar das semanas provou que era só uma desculpa, uma vez que em todas as discussões que se seguiram, a tal viagem nunca mais foi citada. O motivo oficial desde então, esse sim muito mais crível, foi que de um dia para o outro, o amor acabou. Igual a uma chavezinha de liga e desliga, onde você escolhe gostar ou não daquela pessoa. Ela racionalizou, decidiu que era momento de ficar sozinha, foi lá e, click! “Não o amo mais!â€

Ainda nos falamos, mas tudo indica que vou morrer sem saber as motivações reais dela. Contando a história assim, resumidamente, os fatos conferem à garota toques de frieza e maldade que não existiram na verdade. Ela sempre foi muito atenciosa e procurou me explicar tudo de forma bastante paciente e racional. Mas isso por si só carrega um problema. Amar não é racional e, por mais que se mantenha um nível saudável de razão num relacionamento, ainda não se deixa de gostar de um dia para o outro. Se isso não acontece nem quando a pessoa amada pisa feio na bola, porque aconteceria quando tudo parecia perfeito?

Não vou entrar no mérito se outro cara atravessou nosso caminho, ela descobriu um defeito imperdoável em mim ou simplesmente que ela nunca esteve realmente apaixonada. Não importa mais. Decidi que dessa relação só quero as lições. E, de cara, posso dizer que aprendi duas:

A primeira é que nem tudo que parece perfeito, realmente está. É preciso muito mais atenção antes de achar que encontrou a pessoa certa. A segunda é que, definitivamente, não tenho uma chave de liga e desliga no coração. E na real? Nem quero ter. Prefiro essa vela que pode até demorar a apagar, mas, pelo menos, funciona perfeitamente enquanto outros corações vivem entrando em pane.